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Meta aposenta o porrete

É mais simples, barato e produtivo exercitar o poder de forma mais sutil, a partir de algoritmos treinados para burlar tentativas de controle e que faz em das linhas de defesa instrumentos tão inúteis quando a Linha Maginot.

Por Fernando Molica

Mark Zuckerberg libera calúnia, injúria e difamação

Ao criticar a atuação da empresa na eleição brasileira, o Comitê de Supervisão de Conteúdo da Meta — dona do Instagram, Facebook e Whatsapp — reforçou que o velho porrete citado por Theodore Roosevelt para controlar vizinhos foi substituído por mecanismos coloridos, sedutores e envolventes.

Erraram os bolsonaristas que levaram para o comício da Avenida Paulista a alegoria de míssil e a manifestação do desejo de que Donald Trump bombardeasse o Brasil. A bomba agora é outra, menos óbvia em sua forma e na promessa de gozo de sua potencial explosão, elabora de outra forma o desejo de destruição, de amor ao ódio.

Invasões, ainda que pontuais, como a ocorrida na Venezuela, são usadas apenas em casos extremos. É mais simples, barato e produtivo exercitar o poder de forma mais sutil, a partir de algoritmos treinados para burlar tentativas de controle e que fazem das estruturas de defesa instrumentos tão inúteis quando a Linha Maginot criada para barrar a máquina de guerra nazista.

Graças a um Tribunal Superior Eleitoral mais atento a exército virtual interno do que ao invasor que busca manipular o processo de votação, os agressores deitam e rolam. Quando muito inventam desculpas grosseiras para tentar justificar o que foi detectado e provado: a utilização de instrumentos para barrar a disseminação de mensagens da campanha de Lula (PT) e estimular as oriundas das tropas de Flávio Bolsonaro (PL).

Chega a ser risível a tentativa do TSE de ameaçar com multas irrisórias uma empresa com a riqueza e o poder da Meta. Não dá para usar armas utilizadas para constranger abusos cometidos por empresas ou pessoas físicas brasileiras. O jogo teria que ter sido muito mais pesado, como o utilizado pelo ministro Alexandre de Moraes, que tirou o X, ex-Twitter, do ar.

A farra eleitoral do Instagram representa uma ameaça ainda maior para o país, para os conceitos de soberania e de liberdade. Trata-se de um inimigo diferente, alimentado por cada um nós ao postarmos, curtirmos, comentarmos, comprarmos ou, simplesmente, clicarmos sobre um produto ou serviço. Ele sabe tudo de mim e de você.

Alimentamos aquele que nos vigia e que, por sua vez, nos entrega rações balanceadas do que gostamos, uma estratégia que reforça nossa incapacidade de ouvir e entender o outro, que nos empanturra com nossas próprias certezas, que estimula nosso radicalismo.

O processo de reafirmação do sectarismo de cada um de nós a partir da seleção do que nos será servido já é grave, incompatível com a lógica democrática — diferentemente do que ocorre em um jornal, onde várias visões são publicadas, as redes nos dão apenas nossos pratos favoritos, o que é desatroso na lógica política democrática, que pressupõe convivência entre sabores diferentes.

Mas, além disso, o Instagram decidiu fraudar as porções, não entregar o que um lado encomendara e fornecer bônus para o outro. Atua como um restaurante que mandasse uma pizza pequena para quem pediu a grande enviasse três grandonas para quem tivesse pago por apenas uma. Todos corremos o risco de indigestão.