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Uma nova chance para a direita

Animada com a popularidade do bolsonarismo, a direita se deixou levar, relevou o golpismo, achou possível haver uma versão moderada de uma corrente que precisa ser radical.

Por Fernando Molica

Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo: de olho numa direita não bolsonarista

A derrota, a fuga e a carta de Flávio Bolsonaro deram à direita brasileira a chance de seguir um caminho próprio, independente do extremismo representado pela corrente política liderada pelo ex-presidente Jair, pai do candidato que perdeu a disputa para Lula.

Uma oportunidade e tanto para uma linha de pensamento político que há até poucos anos sequer ousava dizer seu nome. Ao longo da história brasileira, ser de direita era, digamos, um comportamento padrão. Juscelino Kubitschek e Tancredo Neves eram de direita, e ninguém frisava essa característica de ambos. A anormalidade, ser de esquerda ou, esconjuro, comunista, é que precisava ser nominada e ressaltada. Nem mesmo ditaduras brasileiras assumiam ser de direita.

(Por outras razões, até para não engrossar o número de simpatizantes presos, torturados e mortos, a esquerda também preferia usar um eufemismo, dizia-se progressista, conceito que servia de contraponto ao conservadorismo.)

Por uma dessas ironias históricas, assim que políticos começaram a ensaiar a dizer que eram de direita, a qualificação acabou apropriada pela extrema direita, por aqui representada pelo bolsonarismo.

O sequestro da palavra fez com que fosse dela fossem apartadas características importantes da corrente política, como um liberalismo que não se restringe à economia, mas que marca presença em todas características pessoais e sociais.

O liberalismo, amplo, geral e irrestrito, contribuiu até para afrouxar dogmas de uma esquerda outrora conservadora no comportamento (hippies surgiram nos Estados Unidos, não na União Soviética).

O bolsonarismo contraria normas básicas do conservadorismo: conservadores respeitam a autoridade, a lei e a ordem, não saem por aí quebrando palácios e cultivando rebeliões em quartéis.

A situação por aqui ficou tão esquisita que representantes de uma direita mais clássica passaram, de uns tempos para cá, a se apresentarem como "de centro". Pior é que, além de imprecisa, a palavra "centro" ainda precisa tentar marcar diferenças em relação ao Centrão.

Animada com a popularidade do bolsonarismo, a direita se deixou levar, relevou o golpismo, achou possível haver uma versão moderada de uma corrente que precisa ser radical para existir. O Novo, que se apresentava como alternativa liberal, virou sublegenda do PL; políticos como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, fingiram que não viram e ouviram a gravidade de atos e falas de integrantes da família Bolsonaro.

Com medo de brigar com a extrema direita, Tarcísio não montou o cavalo selado que passou à sua frente e perdeu a chance de ganhar de Lula, talvez até no primeiro turno.

O comportamento de Flávio depois da eleição abriu uma nova oportunidade para a direita ter coragem de descer sozinha para o play. Mas, antes disso, precisa provar que não vai correr para os braços do irmão fortão e autoritário quando achar necessário.