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Mocidade vira o mapa de cabeça para baixo

A América Latina encontra sua vocação no enredo que entrelaça pensadores como Eduardo Galeano, Ailton Krenak, Lélia Gonzalez e Milton Santos

Por Fred Soares - Especial para o Correio da Manhã

Primeira escola a desfilar na segunda-feira, a Mocidade recorre à latinidade para voltar ao topo do Grupo Especial

Com Jack Vasconcelos de volta ao comando e um samba assinado por seis mãos, a verde e branco de Padre Miguel abre a segunda-feira com "Latinamente Independente" Em 1943, o artista uruguaio Joaquín Torres García pegou o mapa da América do Sul, virou-o de cabeça para baixo e deu o recado: o norte, para nós, é o Sul. Não pediu licença a nenhum cartógrafo. Oitenta e quatro anos depois, a Mocidade Independente de Padre Miguel leva o desenho - e a filosofia- à Sapucaí e ainda ganha o privilégio de ser a primeira a mostrá-lo: abre a noite de segunda-feira, 8 de fevereiro.

O enredo se chama "Latinamente Independente - Nosso Norte é o Sul em Remanifesto" e foi apresentado em maio de 2026. A sinopse é de Jack Vasconcelos, e a bibliografia no fim do texto já conta metade da história: Eduardo Galeano, Ailton Krenak, Lélia Gonzalez e Milton Santos, ao lado de discos e canções. Nas palavras do carnavalesco, o desfile é "um manifesto que propõe uma revolução de visão carnavalizada na qual a América Latina toma, ou retoma, o poder".

No caminho cabem a ironia com a cultura colonizante, o ouro saqueado, os museus cheios do que não lhes pertence, os monumentos a quem não merece e o saber indígena e africano como bússola. Entra até o "quilombo tecnológico", e a alegria aparece como forma de resistência. A sinopse fecha com um aviso que serve de lema para a arquibancada: "Perdoe, mas não esqueça.".

Tem muito da disrupção tão comum de um ídolo de Padre Miguel que já partiu: Fernando Pinto. Jack é conhecido da casa. Foi dele o desfile em homenagem a Elza Soares, em 2020, que rendeu à Mocidade o terceiro lugar. Em fevereiro de 2026, o Tuiuti anunciou a saída do carnavalesco, e a Mocidade comemorou o retorno com uma frase sem cerimônia: "Jack Vasconcelos é meu novo carnavalesco para 2027!!"

Houve troca de calçada sem estardalhaço: Renato Lage, dispensado pela escola de Padre Miguel, foi cuidar do Tuiuti, e Jack fez o caminho inverso. A escola precisava mesmo de um giro. Nos últimos cinco carnavais foi oitava, 11ª, 10ª, 11ª e 11ª, e por três vezes terminou a um degrau do rebaixamento. Em 2025, escapou da queda por uma posição. Em 2026, com "Rita Lee, a Padroeira da Liberdade", somou 267,4 pontos.

É pouco para uma escola fundada em 10 de novembro de 1955, que tem seis títulos do Grupo Especial (1979, 1985, 1990, 1991, 1996 e 2017, este dividido com a Portela), uma bateria que se apresenta como "Não Existe Mais Quente" e um passado futurista que pôs a Avenida de queixo caído nas décadas de 1980 e 1990. O samba também veio com clima de manifesto. A escolha aconteceu na madrugada de 6 de setembro, numa final com quatro sambas e estimativa de mais de dez mil pessoas na quadra. Ganhou a parceria de PC Feital, com Alex Saraiça, Denilson do Rozário, André Russo, Carlinho da Chácara e Fábio Bueno. Letrista do primeiro time da MPB, Feital resumiu a vitória em poucas palavras: "Esse samba é um manifesto."

Fora da pista, a escola também mexeu nas peças. A comissão de frente teve quase 400 candidatos em testes conduzidos pelo coreógrafo Marcelo Misailidis. E a rainha de bateria é Gaby Mendes, de 23 anos, ex-passista da casa. E dentro da pista também: Evandro Malandro chega da Grande Rio para ser a voz da escola e o mestre-sala Diogo Jesus passa a ter a companhia de Rafaela Theodoro, ex-Imperatriz. Quem abre a noite na Sapucaí costuma ditar o rumo. Desta vez, o rumo é o Sul, tudo conduzido por um dos orgulhos da Zona Oeste.