'Elza' transcende fronteiras do tempo, num jorro de afeto
O mais possante dos oito documentários da competição Première Brasil de 2026 ficou para o desfecho da seleção: “Elza”, novo filme do único diretor do país a ter vencido o troféu L’Oeil d’Or de Cannes, com “Cinema Novo”, há dez anos. Ele volta agora com um biopic nada convencional, ou melhor, mais um, pois antes, em 2012, fizera um retrato de vida totalmente inusitado em “Jards” (sobre o violonista e cantor Jards Macalé), que lhe valeu (merecidamente) o Troféu Redentor de Melhor Realização. Ali, transformou o que deveria ser uma narrativa informativa sobre os feitos de uma ave canora da MPB num musical realista, sem espaço para dados de Wikipedia. Agora, ao passar em revista a história de Elza Soares (1930-2022), Eryk adota um caminho épico, na forma de uma pintura muralista da História do(s) tempo(s) de sufoco e de glória da intérprete, usando as tintas da filmografia autoral nacional — em especial “Rio, Zona Norte” (1957), de Nelson Pereira dos Santos — como tinta.
Alcança com isso, numa prova de amadurecimento, um nível de requinte que dá moldura à sua pulsão dionisíaca sem refreá-la, embelezando sua estética demiúrgica no compasso do viver de Elza. Ela é a partitura. O diretor de “Rocha Que Voa” (2002) deixa a própria cantora conduzir (espiritualmente) a travessia por quase um século de vida - e cerca de sete décadas de música – numa forma de narrar em desabafo. Combina imagens inéditas, arquivos raros e conversas registradas pelo próprio Eryk ao longo de oito anos de filmagens. O craque Garrincha (1933-1983), paixão (+ q) fulminante da diva, fruída ao longo de 17 anos assombrados pelo álcool (porém acolchoados por um benquerer covalente) é um dos pontos cardeais de sua fala. É raio, estrela e luar.
A rouquidão gutural de Elza vira estrutura dramatúrgica de um diário de memórias, desejos, perdas e reinvenções que, em vez de explicar um ícone, usa sua existência para radiografar um Brasil em permanente ebulição, num jogo de confluências com imagens históricas do nosso cinema. A peleja antirracista e antimachista ganha holofotes nos relatos que são recuperados ao longo da edição. A sinuosa montagem, que põe o público num transe nas sequências em que a "biografada" solta o gogó, foi construída por Ava Rocha (irmã de Eryk) com Santiago Obejero Paz, mais a colaboração de Cristina Amaral e Renato Vallone (parceiro habitual do cineasta). Ao montarem os planos, em interseções com registros do passado e filmes consagrados, esses artistas se alinham afinadamente com o desenho de som mais refinado do festival, feito pelo mago Waldir Xavier. É dele a edição sonora, tendo Toco Cerqueira a cargo da mixagem.
Depois da estreia mundial no Festival do Rio, “Elza”, uma produção da Aruac Filmes e da Maria Farinha Filmes (que também será sua distribuidora, junto com a Gullane +), em coprodução com Globo Filmes e GloboNews, estará, no próximo dia 18, na grade do Festival de Roma, na Itália, ampliando sua carreira internacional antes da chegada aos cinemas brasileiros. O evento vai de 13 a 25 deste mês.
Ao fim da sessão do filmaço de Eryk, que contou com a presença da ministra da Cultura, Margareth Menezes, na plateia do Estação Claro Gávea, houve a projeção de “Vicentina Pede Desculpas”, de Gabriel Martins, o Gabito, encerrando a seleção de ficções em concurso. É a saga de uma septuagenária mineira (Rejane Faria) que sai pela cidade se desculpando com familiares de vítimas de um desastre de ônibus cujo motorista era seu filho. No domingo, o júri presidido pela produtora espanhola Esther García anuncia a premiação.