Zé Celso vence demandas e ilumina telas
Noilton Nunes trabalha no resgate de 'O Rei da Vela', filme que fez com o diretor teatral de São Paulo a partir da montagem lendária de Oswald de Andrade, feita há seis décadas
Envolvido na criação de um projeto de ficção avesso os códigos comerciais que apelida de Made in USA, numa crítica ao colonialismo, Noilton Nunes anda às voltas com recordações (e criações) que fazem interseção entre sua obra polifônica e a cosmogonia teatral de José Celso Martinez Corrêa (1937-2023), o eterno Zé Celso. Entre 1979 e 1982, os dois conceberam "O Rei da Vela", uma experiência cinematográfica de vanguarda que transpõe para o audiovisual a irreverência antropofágica de Oswald de Andrade (1890-1954), escritor, poeta e um dos mais controversos expoentes do Modernismo brasileiro.
O encenador paulista e o documentarista carioca combinaram teatro, cinema e vídeo numa colagem estética e política que desafia as convenções da linguagem e confronta as estruturas de poder da sociedade. O experimento que fizeram, coroado com um Kikito de Melhor Montagem, em Gramado, voltará ainda a ser exibido no Brasil em uma homenagem a Zé Celso, que completaria 90 anos. A primeira sessão está programada para 8 de janeiro de 2027, nas salas do Estação Botafogo, no Rio de Janeiro.
"Na última vez em que encontrei o Zé Celso, conversamos sobre exibir o filme no Teatro Oficina para que os letreiros do filme pudessem ser vistos dentro dos locais onde foram pintados e, posteriormente, demolidos, sem deixar vestígios. Também a projeção não poderia ser como as tradicionais. Projetor num lado e tela no fundo. Deveria ter vários telões espalhados pelo moderno espaço do Oficina", conta Noilton.
"Pro Zé Celso, o tempo de duração do filme, de 240 minutos, não era problema, pois ia passar como passam as peças do Oficina, com três ou quatro horas de duração. O desejo dele, este sonho dele, não teve tempo para ser realizado. Agora vai... E vai ser uma experiência audiovisual sem precedentes. Em 2027, faremos várias homenagens pelos 90 anos do José Celso com exibições de 'O Rei da Vela' em várias cidades do Brasil. Estamos trabalhando com jovens que estão muito animados com a possibilidade de fazer o filme renascer das cinzas".
Interpelado sobre esse resgate pelo Correio, Noiton mandou um trecho de um texto, para ser lido em inglês, durante apresentações no exterior, como uma passagem pela galeria Tate: "A oitava arte chegou para ficar. O que é? É a junção de todas as artes com as forças de todas as modernas tecnologias de comunicação. O que acontece aqui e agora pode ser visto instantaneamente em todo o mundo. Oswald de Andrade é o Shakespeare brasileiro. Escritor e dramaturgo, foi um dos fundadores do Movimento Antropófago. Foi uma das personalidades mais polêmicas do Modernismo", descreve Noilton.
Ao lado de Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, do escritor Mário de Andrade e de outros intelectuais, Oswald organizou a Semana de Arte Moderna de 1922. Em 1924, lançou o Manifesto Pau-Brasil. Explicando o nome do manifesto, o autor diz: '"Pensei em fazer uma poesia de exportação. Como o pau-brasil foi a primeira riqueza brasileira exportada, proponho, assim, que o Brasil devore a cultura estrangeira e crie uma cultura revolucionária própria".
Oswald percebeu que o Brasil e toda a sua multiplicidade cultural, desde as variadas culturas autóctones dos índios até a cultura negra, representavam uma vantagem e que, com elas, se poderia construir nossa identidade, renovando as letras e as artes. "A poesia tem que ser revolucionária. A poesia existe nos fatos", dizia o autor.
O manifesto oswaldiano propõe a descolonização do Brasil pelas vias de um levante popular. Inspirado explicitamente em Marx, Freud, André Breton, Montaigne e Rousseau, ataca a herança portuguesa e o padre Antônio Vieira. "Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade."
A antropofagia, segundo Oswald, é guerreiro se alimentando de outro guerreiro forte, para assimilar o que ele tem de melhor. E como a literatura brasileira vivia em crise de identidade, Oswald resolve a questão: "Devemos ser antropofágicos com a cultura europeia. Devemos comê-la e digerir tudo aquilo que ela tem de bom, devolvendo tudo na forma de uma produção superior, com muito senso de humor e crítica".
Memórias de encenação
Morto em 6 de julho de 2023, aos 86 anos, em decorrência de complicações provocadas por queimaduras sofridas num incêndio em seu apartamento, Zé Celso dirigiu em 1967 a histórica montagem de "O Rei da Vela", peça escrita por Oswald em 1933 e publicada em livro em 1937, considerada um marco do teatro antropofágico e uma das manifestações artísticas precursoras do Tropicalismo. A ideia de Noilton é despertar memórias da encenação. Com ela, despertam-se brios de guerra.
Existe uma ideia de Brasil que atravessa o cinema de Noilton: a de um país resiliente, capaz de sobreviver às suas próprias contradições, reinventar-se diante das adversidades e encontrar na cultura uma ferramenta de resistência. Cineasta que ganhou projeção na década de 1970 com trabalhos de espírito libertário, como "Leucemia - O Filme da Anistia", Noilton construiu uma filmografia atravessada pela inquietação política, pela experimentação e por uma disposição quase artesanal de investigar a história brasileira. Essa vocação permanece em obras como "Sigilo Eterno" (2018) e no monumental "A Paz é Dourada", ao qual dedicou quase duas décadas de trabalho, estabelecendo um diálogo cinematográfico com os sertões e o pensamento de Euclides da Cunha (1866-1909).
Nascido em Campos dos Goytacazes, no interior fluminense, Noilton é daqueles realizadores cuja dimensão artística não cabe inteiramente nos registros de uma enciclopédia. O "Dicionário de Cineastas Brasileiros" (1990), importante referência da literatura cinematográfica nacional, define-o como "documentarista e técnico (fotógrafo e montador) especializado em filmes didáticos e científicos". A descrição contempla uma parte importante de sua trajetória, inclusive sua contribuição como pesquisador e professor, mas não alcança a poesia que existe em seu olhar sobre o mundo.