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A nação que fala por memes

Primeira grande mostra brasileira sobre o tema chega ao CCBB Rio com 800 obras de 200 criadores e artistas e sugere que a linguagem da internet é tão legítima quanto qualquer vanguarda artística

Por

Affonso Nunes

OBrasil fala em memes como fala português: sem pensar, com sotaque e em volume altíssimo. O país figura entre os maiores produtores e consumidores do gênero no mundo, e agora é também o primeiro a dedicar ao fenômeno uma exposição de grande porte. "MEME: no Br@sil da memeficação", que estreia neste sábado (7), no Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro, reunindo cerca de 800 criações de 200 produtores de conteúdo e artistas para sustentar uma provocação: a linguagem da internet não é apenas ruído de rede social, mas forma artística plena.

A curadoria é de Clarissa Diniz e Ismael Monticelli, com colaboração do @newmemeseum, perfil que entre 2020 e 2025 chegou a quase meio milhão de seguidores até ser derrubado pela Meta. A dupla parte da memeficação — o processo pelo qual imagens, frases e gestos são apropriados, reproduzidos e transformados, ganhando sentidos novos a cada contexto — para mostrar que essa lógica não nasceu com a web. "Operações como a repetição, a paródia, a sátira e o deslocamento de significados fazem parte da história da cultura há muito tempo", explica Clarissa, que enxerga na mostra uma continuidade entre o Carnaval, os bordões de TV e a zoeira digital.

É nesse gesto que a exposição confere estatuto artístico à linguagem memética.

Ao lado de criadores como Greengo Dictionary, Melted Vídeos e Porta dos Fundos, convivem Anna Maria Maiolino, Nelson Leirner, Gretta Sarfaty, Claudio Tozzi, Regina Silveira e Augusto de Campos — nomes consagrados que, cada um a seu modo, já praticavam a apropriação e o deslocamento antes do primeiro meme circular.

"Memes não são só piadas. São ferramentas políticas, culturais e afetivas. São como o Brasil elabora, disputa e negocia suas diferenças — sociais, raciais, de gênero, estéticas — em tempo real", afirma Clarissa. "Eles não apenas refletem a realidade, mas atuam sobre ela: produzem memória, disputam narrativas, elaboram ficções, geram pertencimento. Enquanto fazemos memes, os memes refazem o Brasil", reforça Ismael.

O percurso, em cinco núcleos, vai do jogo de palavras — com línguas digitais como o tiopês e o pajubá e a eterna Ruth Lemos do "sanduíche-íche" — à política da polarização, passando pelo amadorismo como força criativa e pela vida privada transformada em espetáculo. Há onças-pintadas táteis inspiradas na nota de R$ 50, neons, esculturas, instalações audiovisuais e um debochado "Museu do Homem da Internet". "A exposição parte do humor para provocar uma pergunta: como estamos refazendo o país por meio das suas imagens mais debochadas?", resume a curadora.

SERVIÇO

MEME: NO BR@SIL DA MEMEFICAÇÃO

CCBB Rio de Janeiro (Rua Primeiro de Março, 66, Centro).

De 7/11 a 1/2/2027, quarta a segunda (9h às 20h)

Grátis, com retirada de ingressos na bilheteria ou pelo site www.ingressosccbb.com.br