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A primavera das pequenas editoras

Em sua 25ª edição, a feira das editoras independentes ocupa o MAR neste fim de semana com homenagem aos 90 anos de Silviano Santiago

Por

Affonso Nunes

OMuseu de Arte do Rio (MAR) recebe neste fim de semana, pelo segundo ano consecutivo, a Primavera dos Livros. Organizada pela Liga Brasileira de Editores (Libre), associação que reúne cerca de 200 casas editoriais de pequeno e médio porte, a feira chega à sua 25ª edição com mais de 60 editoras distribuídas em 50 estandes, além de debates, lançamentos, sessões de autógrafos, oficinas e contação de histórias. O tema que orienta a edição é "Micropolíticas para um futuro possível", e o slogan, "Bibliodiversidade em rede".

"As conversas e atividades desta edição partem da convicção de que pequenas ações, assumidas no cotidiano de quem faz e de quem lê, têm força para transformar um campo inteiro", define Lizandra Mangano, presidente da Libre. "Receber bem as novas gerações amplia o público do livro e renova o próprio mercado, e a programação reúne vozes dispostas a imaginar esse caminho", destaca a curadora e produtora do evento, Camila Perlingeiro.

A sexta-feira (6) é o Dia do Editor, dedicado às transformações do setor: o efeito das redes sociais sobre o hábito de leitura, o crescimento dos audiolivros, a circulação internacional da literatura brasileira e o papel dos clubes de leitura. Há ainda uma mesa sobre inteligência artificial, em que Tatiana Roque, da UFRJ, pergunta quem é remunerado quando uma máquina aprende com um livro.

O primeiro dia reserva também a homenagem mais aguardada: Silviano Santiago completa 90 anos com dois livros novos nas livrarias, e nenhum deles estava nos planos. Um ensaio biográfico sobre o autor, publicado pela Autêntica, começou como biografia — mas o biografado não permitiu. Já nas primeiras páginas, é Silviano quem interroga o jornalista João Pombo Barile sobre o propósito das entrevistas, e o livro vai sendo escrito nessa disputa. Foi durante essa pesquisa que Barile encontrou, numa caixa de papelão na biblioteca do escritor, o projeto gráfico de "XXXV - Silviano Santiago", livro de poemas escrito aos 35 anos, em 1971, e dado como perdido por mais de meio século. O projeto era de Hélio Oiticica, amigo de Silviano nos anos de Nova York: o artista recortou fotografias do poeta e compôs fragmentos do rosto com os vazios das páginas. A obra, com versos em português, francês e inglês, acaba de sair pela Pinakotheke. Os dois conversam no MAR às 17h30 de sexta, com mediação de Camila Perlingeiro.

No sábado, a feira recebe uma estreia transatlântica. A escritora cabo-verdiana Vanessa Yetu chega aos leitores brasileiros com "Velório de moscas sobre a carne" (Pallas, 144 páginas, R$ 52), primeiro livro dela publicado no país e obra que inaugura a Coleção Múcua, dedicada à literatura contemporânea africana com curadoria do angolano Ondjaki. "O olhar de Vanessa Yetu funciona como uma lente de precisão que habita paisagens humanas complexas e valoriza o silêncio de cada gesto", escreve Ondjaki na apresentação. Nascida na Ilha de Santiago em 1974, formada em Economia em Portugal e radicada em Angola desde 2004, a autora escolheu o sobrenome literário Yetu — "nosso", em línguas bantas — para lembrar que a escrita não é atividade solitária. Ela participa da mesa sobre leitura, tempo e território às 13h30, ao lado de Bianca Ramoneda e Felipe Charbel.

No fim de semana, a programação mergulha em temas sociais e culturais. No domingo, a roda "Onde moram os encantados" reúne Luiz Rufino, Rogério Athayde, Rai Soares, Ana Gibson e Juliana Franklin em torno das encantarias e dos saberes afro-brasileiros e indígenas na literatura.

Às 15h, o filósofo Renato Noguera, a editora Lizandra Magon e a escritora Renata Seldin discutem "A mulher hétero no mapa da fome" — os relacionamentos hoje, o que os aplicativos trouxeram de bom e de ruim para as aproximações, e o que a chamada crise da masculinidade e o empoderamento das mulheres têm a ver com isso. Noguera chega à feira com o livro "Por que amamos? O que os mitos e a filosofia têm a dizer sobre o amor" recém-escolhido pelo público para o Clube de Leitura CCBB, encontro que ele protagoniza no dia 11, no Centro Cultural Banco do Brasil. "O amor faz parte da nossa vida, mas isso não significa que saibamos amar: esse aprendizado exige escuta, reflexão e disponibilidade para mudar", afirma o autor, doutor em Filosofia e professor da UFRRJ.

A mesa "O Rio para além do cartão-postal", com Janaína Nascimento, Thais Velloso e Rafael Freitas da Silva, propõe uma geografia literária da cidade que começa nos subúrbios. Bráulio Tavares, Rodrigo Santos e Sandra Menezes discutem fantástico, horror e afrofuturismo. Martin Carnoy, da Universidade de Stanford, e Michael França, do Insper, debatem por que mais anos de escola não garantem as mesmas chances a todos. E Chico Alencar, Dani Balbi e Tainá de Paula fecham o domingo perguntando quais futuros para o Brasil.

A edição também ativa a economia criativa circular. Pela campanha "A Primavera floresce nas bibliotecas", na plataforma Benfeitoria, a Libre busca arrecadar R$ 50 mil para renovar acervos de 37 bibliotecas comunitárias do estado: 75% do montante vai para as bibliotecas, e os bibliotecários de quatro redes estaduais farão as compras durante a feira, com vouchers de R$ 1 mil.

SERVIÇO

primavera dos livros 2026

6 a 8/11, sexta a domingo (10h às 19h)

Museu de Arte do Rio - MAR (Praça Mauá, 5, Centro) Grátis