Sandra Gómez Velásquez: 'Há cineastas que constroem suas carreiras a partir dos festivais'

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Sandra Gómez Velásquez, diretora de marketing da MUBI para a América Latina

Tem pérolas das mais preciosas com DNA MUBI, o ecossistema digital de distribuição pautado por curadoria humanizada (ou seja, mais interesse no risco autoral, do que no lucro capitalista clássico), na programação do 74° Festival de San Sebastián, em fricção nas telas da Espanha a partir desta sexta-feira. A grife espalha sua presença por diferentes secções de Donostia (nome da cidade Basca no dialeto local), confirmando o avanço da plataforma no território da distribuição de cinema de autor.

Entre as suas maiores apostas está "Hope", explosiva ficção científica de CEP sul-coreano de Na Hong-jin que passou pela competição de Cannes e integra agora a prestigiada Perlak. A mesma seção acolhe ainda dois títulos associados à MUBI: "Coward", novo filme do belga Lukas Dhont. Já a irreverência de "Acampamento Miasma" ("Teenage Sex and Death at Camp Miasma"), de Jane Schoenbrun, dos EUA, ganha espaço na mais experimental Zabaltegi-Tabakalera. Há ainda "Moscas", do mexicano Fernando Eimbcke.

O conjunto dá à empresa uma espécie de festival dentro do festival e reforça a transformação da MUBI: de plataforma dedicada à cinefilia, tornou-se uma distribuidora capaz de acompanhar os filmes desde os grandes certames internacionais até às salas e ao streaming. Às vésperas da abertura do festival espanhol, Sandra Gómez Velásquez, diretora de marketing da MUBI em nuestro continente, conversou com o Correio sobre o lugar dos festivais na circulação do cinema de autor, a importância do mercado brasileiro e a tentativa que a MUBI faz para ultrapassar os limites do streaming e estabelecer uma relação presencial, corpo a corpo, com sua comunidade.

Qual é o papel estratégico dos festivais internacionais, sobretudo San Sebastián, para a circulação dos filmes da MUBI e para a própria consolidação da plataforma como uma marca ligada à curadoria?

Sandra Gómez Velásquez - Os festivais são importantíssimos. São centrais na estratégia de qualquer filme que tenha um criador ou uma criadora por trás e, para a MUBI, são espaços fundamentais. Há muito a fazer e muito a ver neles. Contribuem em termos de curadoria e também de negócio, para descobrirmos filmes que eventualmente podemos adquirir, além das relações e do networking. Há cineastas que constroem suas carreiras a partir dos festivais. São espaços que dão prestígio e ajudam a posicionar uma carreira e uma cinematografia.

O Brasil é um país territorialmente enorme e existe aqui uma relação particular da cinefilia com a MUBI, inclusive no meio acadêmico. Qual é a importância estratégica do país para a plataforma?

O Brasil é central dentro da nossa estratégia. É um mercado e um território que nos importam muitíssimo. É um público profundamente curioso e interessado em cinema e cultura. Para a MUBI, isso é ideal: podemos apresentar nossos filmes e as pessoas os recebem com muita curiosidade e interesse. Queremos estar cada vez mais presentes localmente, sendo percebidos como participantes da própria oferta cultural brasileira.

O MUBI Fest tornou-se uma ferramenta importante para apresentar filmes que depois terão uma vida nas salas e no streaming. Como o festival funciona dentro desse ecossistema?

Existe um diálogo entre o MUBI Fest e tudo o que fazemos. Para nós, ele é um espelho da curadoria da plataforma, mas tem uma característica fundamental: tira-nos do streaming e leva-nos de volta à tela grande. Queremos encontrar o público dentro da sala de projeção, estar com as pessoas e encontrar presencialmente essa comunidade que construímos e que normalmente está diante da tela do telefone ou em casa. O streaming oferece essa possibilidade democrática de assistir a um filme em qualquer lugar, mas o encontro na sala de cinema é muito importante para nós.

O MUBI Fest brasileiro parece ter sofisticado sua curadoria, misturando lançamentos, clássicos restaurados e cinema nacional. Como foi desenhada a edição de 2026?

É um equilíbrio entre várias possibilidades. Em primeiro lugar, o cinema local nos importa muitíssimo. O cinema brasileiro é central na curadoria da MUBI. Neste ano, temos cinema brasileiro e também cinema brasileiro restaurado. Teremos "Xica da Silva", além de um programa dedicado a Eunice Gutman, uma cineasta pioneira e feminista. Ela estará presente e teremos uma conversa com ela e com a curadora de sua sessão, a pesquisadora Susana Fuentes. É uma oportunidade muito rara de escutar diretamente uma das vozes fundadoras do cinema feminista brasileiro e conhecer sua história. Também temos cinema restaurado internacional, como "Model", do lendário Frederick Wiseman, e uma versão restaurada de "Videodrome", de David Cronenberg, cineasta com quem mantemos uma relação de longa data. Depois vêm as estreias nacionais e o cinema contemporâneo do mundo. O fio condutor é sempre a presença de um criador, de uma visão autoral por trás de cada filme.

Se tivesse que definir a MUBI hoje, para além da ideia de uma plataforma de streaming, como a definiria?

A MUBI é um ecossistema em torno do cinema. É um ecossistema que procura prolongar a vida dos filmes dentro e fora da tela. Temos uma revista, um podcast, o streaming, distribuímos filmes nos cinemas e fazemos eventos como o MUBI Fest, que leva uma vez por ano o melhor da nossa curadoria aos territórios onde estamos presentes.

E qual é, especificamente, a importância de San Sebastián dentro desse circuito internacional da MUBI, dada a quantidade de títulos da MUBI por lá?

San Sebastián é um dos festivais que acompanhamos em função dos filmes que integram a nossa programação. É um dos grandes espaços do circuito de festivais em que temos presença e por onde passam nossos filmes.

Você destacou a recuperação de "Xica da Silva" e a homenagem a Eunice Gutman. Para além do MUBI Fest, qual é a importância do cinema brasileiro para a MUBI e como imagina o futuro dessa relação?

O cinema brasileiro é importante e central na estratégia da MUBI. É um cinema que queremos continuar apoiando e redescobrindo, inclusive através de seus clássicos. E queremos permanecer próximos dos cineastas que estão trabalhando agora, apresentando seus filmes nos grandes festivais do mundo, e com os quais podemos estabelecer relações e acompanhar suas carreiras.


Filmes que nascem ou ganham projeção nos grandes festivais podem atravessar diferentes etapas dentro do ecossistema da MUBI — festival, lançamento nos cinemas e streaming. Um bom exemplo é “Valor Sentimental”, do norueguês Joachim Trier, ganhador do Oscar de Melhor Filme Internacional. Como vocês trabalham uma obra com esse perfil e com uma trajetória de premiações?

É uma grande responsabilidade, mas é também uma estratégia que fomos desenvolvendo ao longo do tempo com cada filme que chega desses grandes festivais. Muitas vezes, a vida dessas obras conosco começa justamente nesses espaços. Assumimos essa responsabilidade com muito carinho e cuidado. Criamos campanhas extremamente personalizadas para cada filme. Cada obra recebe um tratamento criativo e uma estratégia específica de divulgação. Precisamos saber exatamente qual filme temos nas mãos e, a partir disso, construir um posicionamento e uma campanha de acordo com suas possibilidades, para que ele possa brilhar e encontrar seu público.