A fome atravessa o tempo

'Revolução na América do Sul' retorna aos palcos e confronta o operário criado por Augusto Boal em 1960 com a precarização do trabalho contemporâneo

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'Revolução na América do Sul', que ganha nova montagem pelas mãos de Wellington Fagner, foi encenada pela primeira vez em 1960 pelo Teatro de Arena

José da Silva é brasileiro e tem fome. Como tantos Josés, ele procura emprego, salário, comida e alguma maneira de sobreviver enquanto atravessa um país governado por interesses econômicos e políticos que parecem sempre maiores do que ele. Augusto Boal colocou esse operário no palco em 1960. Mais de seis décadas depois, a pergunta que acompanha a nova montagem de "Revolução na América do Sul" é incômoda: quanto desse Brasil realmente ficou para trás?

Dirigido por Wellington Fagner, o espetáculo chega terça-feira (8) ao Teatro Poeirinha, em Botafogo, onde permanece em cartaz até 21 de outubro. É a primeira temporada regular de uma montagem cuja trajetória começou antes da pandemia, passou pelo ambiente virtual, percorreu cidades fluminenses e atravessou o Atlântico.

O projeto nasceu em 2019, quando Cecília Boal, viúva do dramaturgo e uma das responsáveis pela preservação de seu legado, assistiu a uma leitura dirigida por Fagner. Aderbal Freire-Filho, presente naquele encontro, manifestou o desejo de receber o espetáculo no Teatro Poeira. A pandemia interrompeu o caminho até o palco.

A montagem estreou on-line em 2021, foi indicada ao Prêmio APTR na categoria Jovem Talento-Elenco e, no ano seguinte, percorreu oito unidades do Sesc no Estado do Rio. Em 2024, chegou a Portugal.

Agora José da Silva desembarca no Poeirinha carregando a mesma fome que o movia quando apareceu pela primeira vez no Teatro de Arena de São Paulo. A estreia original de "Revolução na América do Sul", em 15 de setembro de 1960, teve direção de José Renato e representou um marco na produção do Arena. Em lugar do realismo que marcava boa parte da dramaturgia produzida naquele ambiente, Boal construiu uma sucessão de quadros, caricaturas, canções e situações farsescas para acompanhar o percurso de um trabalhador esmagado pela exploração econômica, pela propaganda eleitoral e pelas negociatas políticas.

Era também um momento decisivo na busca por uma dramaturgia brasileira. A peça surgiu no ambiente do Seminário de Dramaturgia do Teatro de Arena, criado para estimular autores a escrever sobre o país e colocar brasileiros até então pouco representados no centro do palco. "O objetivo do Boal era que houvesse uma dramaturgia nacional, e esse gesto de instigar os escritores brasileiros a criarem uma dramaturgia própria já era, em si, uma ação política, porque só se encenavam peças estrangeiras", observa Cecília Boal.

A experiência iria além daquela temporada. A pesquisadora Iná Camargo Costa identifica a peça como pioneira do teatro épico no Brasil e aponta nela características de agitprop. Uma das cenas sobre a presença do imperialismo na vida cotidiana dos trabalhadores chegou posteriormente ao repertório dos grupos do Centro Popular de Cultura, o CPC, no início dos anos 1960.

É justamente a distância entre aquele Brasil e o atual que interessa à montagem de Fagner. O operário industrial de Boal encontra hoje um mercado marcado pela informalidade, pelo trabalho mediado por aplicativos e pela chamada "uberização". A atualização não pretende apagar o contexto histórico do texto, mas descobrir o que continua pulsando sob ele.

"A montagem busca atualizar o clássico de Boal entendendo que, embora o texto original seja datado em seu contexto histórico, a encenação e as dores da classe trabalhadora permanecem urgentes", afirma o diretor.

Para estabelecer essa ponte, Fagner investe em comicidade, música e paródia política. Elementos do teatro de revista também aparecem na construção das cenas. Os personagens permanecem distantes do realismo psicológico: são tipos sociais e caricaturas utilizados para expor mecanismos do capitalismo e do jogo eleitoral.

A escolha dialoga diretamente com a arquitetura dramatúrgica criada por Boal. José da Silva não é apenas um indivíduo. É um trabalhador transformado em síntese de uma classe e lançado numa espécie de via-crúcis econômica. Enquanto tenta simplesmente comer, encontra pela frente as contradições de um sistema que transforma sua necessidade mais elementar em problema político.

O ator Junior Melo vê justamente nessa fricção entre épocas uma das forças do reencontro com a obra. "A cena teatral contemporânea traz as questões urgentes do presente, mas sempre em fricção com o passado", afirma. Para ele, "Revolução na América do Sul" permanece um clássico da dramaturgia política brasileira. E arrisca uma definição para seu autor: "Boal é nosso Shakespeare com a língua dos três 'P' - popular, político e poético".

No palco, Cássio Duque, Junior Melo, Letícia Ambrósio, Levi Duarte, Nathalia Cantarino e Ritiele Reis retomam uma história escrita quando o Brasil discutia industrialização, salário, capital estrangeiro e soberania nacional.

Mudaram o vocabulário, as relações de trabalho e os personagens do debate político. José da Silva, entretanto, continua com fome.

SERVIÇO

REVOLUÇÃO NA AMÁERICA DO SUL

Teatro Poeirinha (Rua São João Batista, 104, Botafogo)

De 8/9 a 21/10, terças e quartas (20h)

Ingressos: R$ 80 e R$ 40 (meia)