Carpintaria poética

Por CLÁUDIO HANDREY - ESPECIAL PARA O CORREIO DA MANHÃ

As três intérpretes de 'Doce Árido' impressionam pelo timing que nunca se perde entre elas

Há uma engenharia dramática, na qual os dramaturgos exibem suas habilidades para organizarem seus conflitos, diálogos e personagens, elementos que estruturam verdadeira obra teatral. Em "Doce Árido", Tairone Vale revela-se um expert na construção autoral, posicionando seu texto na galeria dos melhores do ano na cena carioca. Implementa uma reviravolta da narrativa, cuja inteligência cênica abarca e impacta a audiência. A violência contra a mulher, traumas, opressões, estabelecem uma engrenagem dramática que desagua em relações familiares conturbadas, sinalizando dores de um isolamento rural.

Um encontro de gerações debruça-se numa rotina árdua de trabalho, diante da miséria em que vivem, com mulheres sem perspectiva, na luta por alguma dignidade. A peça atenta-nos para o descaso com gente rústica que vive desassistida de conhecimento e serviços de saúde, configurando tragicidade por vezes patética, imprimindo humor angustiante.

O diretor articula um sustentáculo poético para sua viagem empírica e inóspita, suavizada por uma montagem sensível. Estipula silêncios aterradores que irrompem as vísceras, além de elaborar marcas que valorizam a dramaticidade. Um movimento aflitivo enquanto exaurem-se na feitura de doces gera um dos belos momentos da encenação, onde tachos aéreos permanecem acima das personagens, sufocando a própria existência. A cena em que a jovem Maria Lúcia revolta-se e destrói a mercadoria é outro acerto com efeito teatral.

As três intérpretes impressionam pelo timing que nunca se perde entre elas. Pri Helena institui força e carisma cativante. Mistura dor e potência, alternando ideias que parecem inconclusivas, manifestando extrema humanidade em sua Maria Antônia. A atriz possui um semblante que favorece a esfera dramática. Na primeira metade do espetáculo, Rebeca Figueiredo desenha contenção, já que sua Maria Lúcia encontra-se medicada. Na sequência toma as rédeas e brilha, costurando filigranas de interpretação em alto nível. A Maria Quitéria de Layla Paganini tem personalidade, expressando humor e sagacidade naquela áspera temática.

A carpintaria cenográfica de Cris Bourgeaiseau assombra e demarca sofrimento. Um platô desvela pobreza com porta e vidraças estilhaçadas, além de cordas vermelhas - como se artérias e veias estivessem expostas, escorando utensílio culinário. Em dado momento, destaca-se e toma vida, determinando atmosfera onírica repleta de apelo visual, como um navio que naufraga em terra firme e vidas afundam vagarosa e poeticamente. O figurino, da mesma, é simplório, adequadamente. A luz de Nitay Krishna trafega entre o luar e o sol diário que dá cansaço, mas não aquece a alma naquele inverno sombrio. A trilha de Laura Jannuzzi passeia entre a viola caipira e flauta corroborando o clima doloroso.

Em definição aristotélica, o teatro imita a vida no sentido de recriação e não de cópia literal. "Doce Árido" abusa disso com maestria!