Finitude rarefeita

Por Cláudio Handrey - Especial para o Correio da Manhã

Assistir Arlete dialogando com um caixão remete-nos à sua primorosa performance na premiada 'A Partilha', de Miguel Falabella

Uma peça é uma série de ações, não trata da ação e nem descreve a ação, é a própria ação. A ação ocorre quando acontece algo que faz com que, ou permite que, uma outra coisa aconteça. Portanto, tomando como pressuposto que o texto dramático é concebido com vistas a sua materialização no palco por meio de atores, essa modalidade literária, além de possuir aspectos peculiares, consequentemente requer também uma investigação criteriosa, tanto para sua compreensão como para uma possível fruição.

A funcionalidade do texto teatral depende extremamente de métodos e técnicas específicas para o próprio teatro, como atesta David Ball, teórico e dramaturgo americano, autor do influente livro de análise do texto dramático "Para Trás e Para Frente: Um Guia para Leitura de Peças Teatrais". "Mande Notícias do Mundo de Lá" exibe uma dramaturgia pífia, a julgar pela narrativa pouco inventiva, onde a previsibilidade é constante, sem estabelecer elementos que coadunam com o âmbito teatral.

Carlos Jardim envereda sua escrita sobre a consciência da morte, dos dissabores de envelhecer, adicionando humor diante de inúmeras contradições, o que auxilia sua fabulação, apesar de não torná-la eficiente. Eulália Eugênia é uma mulher tomada de vida com pavor da morte e que depara-se com o velório da melhor amiga, Rosimere. Ao discorrer sobre lembranças e aventuras que viveram juntas, a ideia instiga, mas não alça voo por convergir em lugar comum. Por ser ampla e complexa, a terceira idade justifica um aprofundamento.

Carlos Jardim conduz sua montagem de forma simplória. Marcas desvalidas não favorecem o talento de uma das maiores atrizes do país, mas alguns deslocamentos articulam uma dinâmica, pela qual o espetáculo ganha força. Vale ressaltar a direção de movimento de Roberta Serrado e Natacha Travassos, que norteiam e sustentam a corporeidade da intérprete.

Em contrapartida, dona de uma trajetória exitosa, Arlete Salles abrilhanta-se todo o tempo. Experiente e talentosíssima, aos 88 anos carrega seu primeiro monólogo com extrema segurança. Impressiona como seus estímulos corporais e vocais estão resguardados, mantendo a bela conexão com a audiência, como sempre. Os graves potentes, além dos rompantes de interpretação, que conceberam a dama da cena, são de uma exuberância ímpar. A atriz dança ao som da banda sueca Abba, diverte-se e inebria a todos com sua dramaticidade e timing cômico afinado. Assistir Arlete dialogando com um caixão remete-nos à sua primorosa performance na premiada "A Partilha", de Miguel Falabella.

Um esquife e cadeiras ambientam a cenografia do diretor. Blusa preta e saia plissada acetinada compõem o figurino de Antônio Rocha. Os efeitos luminares de Sarah Salgado dialogam com a proposta. E Liliane Secco acerta na trilha sonora gerando interferências musicais delicadas e ao finalizar com a beleza de "Redescobrir", na voz inconfundível de Elis Regina.