Aloisio de Abreu: 'Piada ruim não dá cadeia, mas piada errada dá'
Um elenco em estado de covalência, onde a bola rola em harmonia plena, transforma o texto de "Víboras - A Arte do Insulto", em cartaz de sexta a domingo no Teatro Vannucci, numa das comédias mais sagazes das artes cênicas cariocas em 2026 - inclusive quando avança por um terreno reflexivo, a debater intolerâncias. Tá geral em estado de graça em cena, no espetáculo escrito e dirigido por Flávio Marinho, mas baixa um Exu Kevin Kline em Aloisio de Abreu que vence as demandas do mau humor e põe a caretice a cantar pra subir.
Veterano dos palcos, com larga quilometragem na escrita de roteiro, ele vive um ator sumido de cena, que sente orgulho de seus dotes de ave canora, testado em musicais. Casado com um contador há 40 anos (papel em que Marcos Breda puxa, estica, solta, enrola e brilha), ele lamenta apenas a inabilidade do marido em fazer dinheiro com a livraria que abriram juntos. Não é do tipo que chora pitangas, mas bota fora os engasgos do lar tomando guaraná na Desgarrada, bar de uma portuguesa aspirante a fadista (Alice Borges, com uma leveza de Amália Rodrigues) que acaba de contratar um ajudante (Guilherme Dellorto, um McGyver na confecção de boas tiradas).
Essa turma tem lá suas peçonhas, mas em "Víboras - A Arte do Insulto", elas vão compartilhar sonhos, e não perfídia, com "Cantiga Para Luciana" e "Galopeira" a soar ao fundo. Aloisio solta o gogó na hora certa e dá um coice na pasmaceira da vida. Nascido em Resende, há 65 anos, ele assinou seu primeiro contrato como ator profissional em 1982. Fez cerca de 50 peças, como ator quanto autor ou diretor, além de ter participado do elenco fixo dos Trapalhões. Bateu ponto em novelas como "Dono do Mundo" e "Três Irmãs", e fez filmes como "1º de Abril, Brasil" e "Canta, Maria". Cheio de projetos novos no forno, jogando nas onze, ele valoriza o terreiro onde os santos da arte coroaram seu talento: "O teatro me deu régua, compasso, fibra e alegria". Nesta entrevista, ele deixa essa teatralidade filosofar.
Qual é a solidão que guia o universo de bar... com fados, gentrificações e pedidos encruados de casamento do Flávio Marinho? De que forma essa solidão reflete os impasses do Brasil?
Aloisio de Abreu - O teatro é um espelho da sociedade. Vivemos a era da hiperconectividade. Ao mesmo tempo que as redes sociais promovem interação imediata, também alimentam um certo isolamento social, fobias e ódio. Os personagens de "Víboras" fazem parte de uma geração que passou pelas profundas transformações sociais e tecnológicas dos séculos XX e XXI, mas não são almas solitárias nem ficam enfiados dentro de casa. Adoram se encontrar, frequentar o velho bar, atualizar seus afetos e praticar uma coisa linda chamada amizade. Sempre acreditei no poder da comunicação clara. Direta. É a melhor maneira de resolver qualquer questão, seja ela de ordem pessoal ou social. Revoluções não se iniciam na mesa de um bar, mas boas conversas e reflexões aprofundadas, via de regra, funcionam como um primeiro passo pra enfrentar mudanças em casa, na rua, no mundo, dentro de si ou do outro. Em "Víboras", os personagens são testemunhas da nossa História, tanto a que já vivemos como a que está acontecendo sob nossos narizes.
Você começou sua trajetória na televisão em 1991, em "O Dono do Mundo", e atravessou diferentes formatos, da novela ao humorístico, passando por "Sai de Baixo" e "A Diarista". Olhando para esse percurso, que experiências foram decisivas para formar o artista que você se tornou e o que ainda permanece daquele Aloisio que chegou à TV Globo?
Escrever e atuar são um exercício incrível de autoconhecimento. Considero meu ofício quase terapêutico. Quanto mais me embrenho, mais me vejo diante de mim. Principalmente porque eu escrevo humor. O humor me revela e me confronta. O humor me ensinou a rir de mim mesmo. O humor me formou como criador. Na arte e na vida. E tem a técnica, né? Uma boa piada, um bom plot, tudo deve ter ritmo e dinâmica de música. Atuar é assim também. É tudo questão de timing. Escrever e atuar é algo que eu nunca vou deixar de fazer, no teatro, no cinema, TV, streaming. Não penso muito se vou ter espaço ou não. Sigo fazendo.
Em tempos das mais variadas patrulhas e cabrestos, que lugar a comédia ocupa? Que comédia você faz?
Os códigos sociais mudaram e hoje não dá mais pra rir de piadas racistas, misóginas, classistas. Existem comediantes que se queixam do politicamente correto, mas eu defendi. Sem exageros. Bater em minoria não dá. Piada ruim não dá cadeia, mas piada errada dá.
Além de ator, você construiu uma trajetória como autor, colaborando com programas como "A Diarista" e "Sai de Baixo". Como muda o seu olhar quando você deixa de interpretar um personagem para criar as situações, os diálogos e os conflitos que darão vida a ele? Você acredita que o audiovisual brasileiro ainda oferece espaço para a autoria?
Todo autor escreve sobre si. Eu sou assim. Os personagens que eu crio não são sobre mim, mas sou eu o tempo todo quem está ali... nos diálogos, nas situações. A obra autoral é sempre mais instigante e original. Vejo isso em telenovelas e programas como o "Porta dos Fundos".
Onde e como o Flávio Marinho deposita esperança e criatividade no teatro carioca de hoje?
O Flavio é um autor com uma pena acridoce. Tem um olhar apurado sobre uma certa classe média carioca que funciona como um microcosmo brasileiro. O teatro sempre aponta um caminho para a frente. E Flavio está sempre lá.
O que mais vem pelo caminho? Que novas peças e roteiros estão no forno?
Escrevi o monólogo "O que terá acontecido com Narjara Turetta?". É para a atriz Narjara Turetta. Foi um convite de Gloria Pires, que vai dirigir. Estou escrevendo uma comédia maluca pro cinema, além de uma peça para os atores Ricardo Kosovski e Priscilla Rozembaum. Como disse Cazuza, o tempo não para. E eu não piro.