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Amor entre contrastes

Por Cláudio Handrey - Especial para o Correio da Manhã

A proeminência vem da ótima Flávia Reis (C), que abusa do seu timing cômico para rechear o palco com humor de alta categoria

Sucesso na Broadway em 1963, "Descalços no Parque" é uma comédia de Neil Simon, adaptada para o cinema em 1967, com Robert Redford e Jane Fonda. Numa transposição para o Rio de Janeiro, Guilherme Weber explora a intimidade do casal adicionando pitadas de humor e referências brasileiras. Trata-se do embate entre Edu e Lara, que ao chegarem da lua de mel no Copacabana Palace, instalam-se num minúsculo apartamento no bairro do Catete, palco para o desastre conjugal.

O prédio não tem elevador e os seis lances de escada já começam por estressar o jovem advogado, que irrompe o apartamento sem fôlego. O quarto é tão pequeno que mal cabe a cama de solteiro, uma abertura no teto, entre outros obstáculos propiciam a derrocada do relacionamento. Ela, uma jovem descontraída, impulsiva, otimista, não se abate pelas adversidades a que o novo espaço os conduz, todavia, ele é conservador, rígido, focado no trabalho, e o contraste das personalidades gera conflito nos recém-casados, despedaçando o castelo de ilusões diante da vida como ela é. A mãe da protagonista, um vizinho e um técnico de telefone apimentam o desenrolar dramatúrgico.

Apesar do bom gosto da montagem, a direção de Guilherme Weber carece de uma maior personalização. Por vezes parece que estamos assistindo a um sitcom, com marcas que não favorecem a teatralidade. A cena do técnico ao se dirigir à plateia empobrece a encenação e emperra o fluxo dramático. No entanto, a trilha sonora do diretor instaura charme e elegância à montagem, numa imersão na Bossa Nova, criando uma atmosfera envolvente.

Com talento e carisma, Larissa Manoela encanta sem esforço. Presença marcante, a atriz passeia pela cena com segurança, demonstrando domínio corporal, além de colorir sua Lara com perspicácia. Já André Luiz Frambach revela dificuldades com o teatro: perde-se falas pela emissão subvocalizada, além de uma dicção imprecisa, mesmo microfonado, comprometendo a audibilidade e a compreensão do texto. O Sr.Velasco de Claudio Mendes é instigante, colaborando para o bom funcionamento cênico. Diego de Abreu defende seu Paulinho Cuíca com graça e sabedoria na difícil tarefa de sustentar uma personagem insípida.

A proeminência vem da ótima Flávia Reis, que abusa do seu timing cômico para rechear o palco com humor de alta categoria. Repleta de inteligência cênica, enlouquece: joga sapato para o alto, rodopia, diverte-se com as palavras, dando-nos a sensação de que vai se perder na loucura, mas o que se constata é a técnica de uma atriz.

A bela cenografia de Mina Quental, com paredes, fogão, geladeira acinzentados, reflete teatralidade, em perfeita sintonia dramatúrgica com a claraboia. A esbelteza se impõe nos figurinos de Karen Brusttolin, sobretudo na vestimenta dos protagonistas, valorizando os costumes sociais dos anos 1950. A luz de Adriana Ortiz é adequada e se ilumina com delicadeza ao final do espetáculo. Toni Rodrigues auxilia o elenco, mas não resolve a corporalidade do protagonista.

SERVIÇO

DESCALÇOS NO PARQUE

Teatro Clara Nunes (Shopping da Gávea - (Rua Marquês de São Vicente, 52)

Até 28/11, quintas e sextas (20h), sábados (16h e 20h)

Ingressos entre R$ 50 e R$ 25 (meia) e R$ 220 e R$ 110 (meia)