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Montagem esmerada

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Ao lutar contra seus demônios, a protagonista de "Morra, Amor", romance da argentina Ariana Harwicz, estabelece um embate consiga mesma. Adaptado para o teatro pela própria autora, abastece uma arquitetura dramatúrgica impactante.

O esfacelamento dos ideais românticos perante uma crise existencial, na qual chafurda a escritora que vai morar numa casa de campo no sul da França, contra a sua vontade. Uma esposa que rompe com paradigmas domésticos através de um discurso aquecido, sustentado por um fluxo de consciência, transvazando angústias, desespero, dores, infelicidade, encarando de frente seus impulsos intrusivos e involuntários. Uma mulher abarcada por sua ambiguidade: ora pretende pertencer àquele ambiente familiar, ora deseja ardentemente fugir de tudo aquilo, em constante situação-limite. A narrativa expõe a mente da personagem, cujos pensamentos vociferados lhe suprimem a paz interior.

É primorosa a condução de Victor Garcia Peralta, haja vista que dirigir monólogos dificulta a criatividade dos encenadores, já que apenas um ator pode reduzir as possibilidades de desenhos cênicos, mas aqui absolutamente tudo é criativo. Há uma estética visual tocante, na qual Peralta nos envolve todo o tempo, além de todas as filigranas que arquiteta poética e profundamente. Marcas se coadunam com uma fundamentação dramatológica que reverbera teatralmente. Numa tradição hegeliana, a colisão dramática se dá no confronto inevitável em situação de oposição, não é só divergências, é o atrito entre as ideias que produzem consequência. A cena por debaixo do véu é um deslumbramento. Ademais, orienta sua atriz com sensibilidade e sutileza, extraindo e potencializando seu talento.

A competência de Mariana Santos é comprovada na montagem. A atriz instaura um conflito interno que pulveriza diferentes desejos, criando sustentação para legitimar a dramaticidade. Uma corporeidade, amparada por ótimas mãos de Vanessa Garcia, faz com que a intérprete fuja da obviedade. Comediante nata, valoriza seu texto de forma contida, fabricando subtextos repletos de humor, inteligência e sagacidade. Institui velocidade, sem perder nenhuma intenção. A cena que visita os amigos é hilária, sem abrir mão do patético para o qual a narrativa e a direção a conduzem.

Nigga toca contrabaixo e contribui para a experiência sensorial. O cenário de Aurora dos Campos é a beleza que auxilia a direção. Pernas translúcidas desvelam o bosque, que se desvanece assim que a personagem abdica do que lhe oprime, além do véu que sufoca a alma. Karen Brusttolin enroupa a atriz numa camisola salmão esvoaçante que favorece o movimento e simboliza a domesticidade. Ruas laterais e ribaltas enaltecem o clima onírico da montagem, um pino pontua a masturbação e a rebuscada iluminação de Maneco Quinderé propõe uma luz quase toda branca, como se a vida estivesse esmaecida, amalgamando um azul para remeter à memória. Tudo dialoga para que saiamos do teatro nutridos e reflexivos!