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Unicamp debate como religião influencia disputas políticas

Por Raquel Valli

Seminário "Religião como Política", realizado na Unicamp

A atuação da religião nas disputas políticas das Américas, da mobilização de eleitores à formação de identidades e projetos de poder foi tema do seminário “Religião como Política” realizado esta semana no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp.

Nossa Senhora

Na abertura, a socióloga Maria José Rosado Nunes, do Laboratório de Antropologia da Religião (LAR) da Unicamp, abordou o uso político da imagem de Nossa Senhora Aparecida na recente campanha eleitoral brasileira. Segundo Nunes, a dimensão política se deu devido à representação da santa como mulher negra. 

Comunidade evangélica

O pesquisador José Luis Pérez-Guadalupe, da Universidad del Pacífico, no Peru, analisou a mudança na atuação política dos evangélicos latino-americanos e questionou:  “A religião está mais política ou a política está mais religiosa?”.

Lembrou que os evangélicos passaram de “crente não fala de política para irmão vota em irmão”, depois que as estratégias para organizar partidos evangélicos não prosperaram nas décadas de 1980 e 1990. A inserção religiosa passou então a ser realizada no apoio a candidatos específicos. 

Álvaro Bermudez-Valle, pesquisador da Universidad Rafael Landívar, na Guatemala, tratou da influência da teologia da prosperidade, do domínio e do reconstrucionismo na participação política evangélica, pontuando que “as igrejas mobilizam eleitores, mas não fabricam militantes”. 

Conservadores

Em participação on-line, Guillermo Flores Borda, da Boston University, nos Estados Unidos, examinou a circulação do nacionalismo cristão e de pautas conservadoras sobre sexualidade, aborto e família. Para ele, é importante compreender como discursos religiosos, como o lema “Deus acima de todos”, são empregados nas disputas pelo poder.

A antropóloga Brenda Carranza, professora colaboradora do IFCH, afirmou que o fator religioso contribui para explicar como candidaturas de direita e direita radical transformam insatisfações sociais e econômicas em projetos. “Em um processo eleitoral, o candidato posiciona-se como protetor da comunidade moral ameaçada sociocultural e politicamente”, afirma. 

Impérios digitais

O cientista político André Kaysel, professor do IFCH, abordou a circulação internacional de discursos e estratégias políticas. Destacou a aproximação entre lideranças da extrema direita e o papel das plataformas digitais, como Meta, Google e X, na distribuição de mensagens e na formação do debate eleitoral. Elas" têm uma novidade que nenhum órgão de imprensa no passado jamais teve”, observou, referindo-se ao controle sobre “quem conversa com quem” e “que mensagem chega a quem”.

Colaboração

O seminário resulta da parceria entre projetos de pesquisa da Unicamp e da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), com apoio da Fapesp, da Fundaj e do CNPq. A programação terminou nesta quarta-feira (4), com um workshop restrito aos integrantes dos projetos para discussão de pesquisas e questões metodológicas.