☰
✕

Representação e polarização no país

Por Richard Stoltzenburg

O último dia 4 de outubro mostrou, em mais uma eleição, que uma parcela significativa da população ainda não se sente representada pelos candidatos e grupos políticos que disputam espaço nos cenários nacional, estadual e municipal. Em Petrópolis, os números ajudam a dimensionar esse distanciamento: 57.915 eleitores não compareceram às urnas no primeiro turno das eleições de 2026. Outros 5.866 anularam o voto e 4.373 votaram em branco. Somados, foram 68.154 eleitores que, de alguma maneira, não escolheram um candidato. O número representa 28,45% do eleitorado apto do município.

Mas, para além das abstenções e dos votos nulos e brancos, outro dado chama a atenção: Petrópolis terá apenas um representante entre os candidatos ligados ao município eleitos para o Legislativo. Yuri Moura foi o único a conquistar uma cadeira, sendo reeleito deputado estadual. Para a Câmara dos Deputados, nenhum dos candidatos ligados à cidade conseguiu uma vaga. Outros 21 nomes ficaram na condição de suplentes, sendo 12 na disputa pela Alerj e nove pela Câmara Federal.

E aqui gostaria de chamar a atenção para uma questão: o que esses resultados dizem sobre a relação de Petrópolis com a política? Alguns candidatos estavam tentando a reeleição, como Hugo Leal, na disputa por uma vaga em Brasília, e Sérgio Fernandes, pela Alerj. Outros receberam milhares de votos, mas não conseguiram chegar a uma cadeira. O resultado não significa necessariamente que esses candidatos não tenham representatividade, mas mostra a dificuldade de transformar uma votação expressiva em representação institucional.

Seria esse um reflexo do desinteresse pela política? Talvez seja. Mas existe outro elemento que precisa ser colocado nessa discussão: a polarização.

Há alguns anos, a política brasileira parece cada vez mais dividida entre dois grandes campos, esquerda e direita. O problema não está na existência de posições ideológicas diferentes. A democracia precisa delas. O problema surge quando o debate deixa de ser sobre ideias e políticas públicas e passa a ser apenas sobre quem é o adversário e contra quem se deve votar.

A política pode se transformar em uma bolha: cada grupo fala para seus próprios seguidores, confirma suas próprias convicções e, muitas vezes, deixa de conversar com quem pensa diferente. Parte das campanhas eleitorais deste ano foi marcada por disputas, críticas e ataques entre adversários. Mas e o plano de governo? E as grandes discussões que deverão pautar o Brasil nos próximos anos?

Agenda 2030, educação, terras raras, mudanças climáticas, desenvolvimento econômico, saúde pública, segurança, infraestrutura. São apenas alguns dos temas que deveriam ocupar espaço permanente no debate político. Quando se trata do povo, não deveria existir uma bandeira que determine quem merece ou não ter seus direitos garantidos. O Estado precisa atender a todos.

E faço outra pergunta: até os eleitores que defendem com tanta intensidade as bandeiras de seus candidatos conhecem, de fato, as propostas e os planos de governo daqueles em quem votaram?

Em Petrópolis, o resultado também reforça uma característica histórica do eleitorado local. Nas disputas para a Câmara dos Deputados e para a Alerj, candidatos identificados com a direita tiveram votações expressivas entre os eleitores do município. O resultado pode ser interpretado como mais um indicativo do perfil político conservador da cidade, embora a própria eleição também tenha demonstrado que diferentes correntes ideológicas possuem espaço entre os eleitores petropolitanos.

É preciso, contudo, compreender que polarização não significa necessariamente debate. Quando a política se resume a "nós contra eles", diminui-se o espaço para a apresentação de ideias, para o contraditório e para a construção de consensos. O resultado pode ser um debate mais superficial, a circulação de desinformação, o aumento da hostilidade entre grupos e, consequentemente, um afastamento ainda maior da população.

O desinteresse pela política, portanto, não pode se transformar em apolitismo. Não participar também é uma escolha. Não votar, quando não há impedimento legal, significa abrir mão de participar diretamente da escolha de quem tomará decisões que afetarão a vida de todos.

Por isso, mais do que discutir esquerda ou direita, talvez seja necessário discutir representação. Quem está representando Petrópolis? Quais são as propostas? O que os candidatos fizeram durante seus mandatos? O que pretendem fazer? E, principalmente, o eleitor conhece essas respostas?

A política não deveria existir apenas durante os meses de campanha. E a participação popular também não. No fim, deixar de acompanhar a política não faz com que ela desapareça. Apenas permite que outros decidam, sozinhos, os rumos que serão seguidos por todos nós nos próximos quatro anos.