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A Santa, o celular e a urna

Por Victor Corrêa

Nossa Senhora Aparecida virou cabo eleitoral. Na reta final da campanha, ganhou enorme repercussão a informação falsa de que Flávio Bolsonaro queria tirar dela o título de padroeira do Brasil. Era mentira. O caso chegou à Justiça Eleitoral e virou uma disputa sobre desinformação às vésperas da eleição.

Num país em que 56,7% das pessoas se declaram católicas, aquilo não era apenas informação política. Tocava em fé, identidade e pertencimento.

A emoção muda rápido. Às vezes, mais rápido do que uma pesquisa consegue registrar. Mensagens, fotos e vídeos chegam pelo WhatsApp a qualquer hora, inclusive depois que os institutos encerraram suas entrevistas. E na cabine entram a identificação, o medo, a esperança, a raiva e também a rejeição.

A eleição de domingo mostrou o tamanho do espaço que ainda existia para mudanças. Na véspera, o Datafolha dava Lula com 45% dos votos válidos e Flávio com 42%, em empate técnico. Mais revelador era outro número: 13% dos eleitores que já indicavam um candidato admitiam que ainda poderiam mudar de ideia. Entre os que não se identificavam nem com o petismo nem com o bolsonarismo, eram 28%. Na urna, Flávio terminou na frente, com 47,03%, contra 45,16% de Lula.

Isso não significa que a pesquisa tenha "errado" porque não adivinhou o domingo. O dado mais importante estava ali: havia gente suficiente dizendo que ainda podia mudar de voto para mudar também a ordem dos candidatos.

No Rio, a distância entre fotografia e urna foi ainda maior. No Datafolha concluído na véspera, Eduardo Paes aparecia com 46% dos votos válidos e Douglas Ruas com 38%. Quase um em cada cinco entrevistados dizia que ainda poderia mudar de voto. Nas urnas, Ruas chegou a 49,27%, e Paes ficou com 42,76%.

O caso fluminense acrescenta outra camada. Ruas fez da ligação com Jair e Flávio Bolsonaro um de seus principais ativos. Paes fez o movimento contrário: evitou se colar a Lula, justamente para não afastar eleitores bolsonaristas.

Mesmo numa eleição para governador, em que deveriam pesar segurança, saúde, transporte e as contas do estado, pertencer a um lado virou argumento eleitoral. Propostas importam. Mas o eleitor usa atalhos. Muita gente talvez não saiba citar três projetos de um candidato, mas sabe perfeitamente de que lado ele está.

A rejeição funciona da mesma forma. No Brasil, ser "anti" é uma identidade tão forte quanto ser a favor, como apontam David Samuels e Cesar Zucco em sua pesquisa sobre o eleitor brasileiro. Às vezes, votamos menos porque alguém nos entusiasma e mais porque não suportamos a vitória do outro.

E aí entra a ansiedade, não como doença, mas como combustível de campanha: o medo de perder um direito, de piorar de vida, de ver o adversário vencer. Quando alguma coisa parece ameaçada, prestamos mais atenção, procuramos informação e podemos reconsiderar escolhas que pareciam definidas.

Procurar, porém, não garante informação confiável. Significa buscar respostas. E uma delas pode chegar num vídeo de poucos segundos enviado por alguém conhecido.

A mentira sobre Nossa Senhora Aparecida não exigia que o eleitor conhecesse um projeto de lei. Bastava tocar numa crença. Na mesma reta final, também circulou desinformação contra o outro lado: uma capa falsa da revista Veja afirmava que Lula e Janja apoiavam a substituição de Nossa Senhora Aparecida pela umbanda como símbolo religioso do país. O TSE mandou retirar essas publicações.

A emoção não tem partido. A desinformação sabe disso.

Na cidade de Aparecida (SP), onde fica o maior santuário católico do país, Flávio venceu Lula por 58,3% a 32,1%. Não sabemos que efeito aquela mentira teve sobre o voto. E é justamente esse o ponto. Não existe linha reta entre a mensagem que chega ao celular, a emoção que ela provoca e o número digitado na urna.

Até o segundo turno, novas pesquisas tentarão mostrar para onde o eleitor está indo. Continuam importantes. Mas não antecipam a urna. Registram o eleitor naquele momento; a urna o encontra depois de tudo o que aconteceu até lá.

Entre uma coisa e outra, há um celular recebendo mensagens até a hora do voto.