França já está em clima pré-eleitoral em 2026
A França chega à eleição presidencial de 2027 mergulhada em uma combinação preocupante de fragmentação política, insatisfação social, dificuldades fiscais e descrédito das forças tradicionais. A saída de Emmanuel Macron do Palácio do Eliseu, impedido de buscar um terceiro mandato, abre espaço para uma disputa que pode colocar frente a frente dois polos ideológicos radicalmente opostos: a esquerda de Jean-Luc Mélenchon e a extrema-direita do Reagrupamento Nacional (RN), de Marine Le Pen e Jordan Bardella.
O cenário não é apenas eleitoral. É resultado de um mal-estar acumulado. A França enfrenta forte pressão sobre as contas públicas, enquanto o Parlamento permanece fragmentado e o governo encontra dificuldades para aprovar medidas de ajuste. A disputa em torno do orçamento de 2027 já expõe a dimensão do problema. Ao mesmo tempo, protestos estudantis e outras manifestações revelam uma sociedade inquieta com o futuro econômico, as mudanças climáticas, a inteligência artificial, a educação e a perspectiva de avanço da extrema-direita.
Nesse ambiente, a extrema-direita encontrou terreno fértil para transformar insegurança econômica, imigração e insatisfação com o sistema político em combustível eleitoral. O RN aparece na dianteira das pesquisas, enquanto Le Pen procura apresentar sua legenda também como alternativa para a gestão das finanças públicas. Bardella, por sua vez, consolidou-se como um dos principais nomes do partido.
A esquerda, entretanto, não está fora do jogo. Mélenchon já lançou sua candidatura e tenta ocupar o espaço de principal adversário do RN. O problema é a fragmentação do campo progressista, dividido entre diferentes partidos e estratégias. Se a esquerda não encontrar uma fórmula capaz de reunir votos além de seu eleitorado mais fiel, poderá facilitar a chegada da extrema-direita ao segundo turno — ou até à Presidência.
A possibilidade de um segundo turno entre Mélenchon e Le Pen seria mais do que uma escolha entre dois candidatos: representaria a falência do centro político que dominou a França na última década. Também testaria a capacidade das instituições de absorver a polarização sem permitir que o debate democrático seja substituído pela intolerância e pelo confronto permanente.
A eleição de 2027, portanto, poderá ser um divisor de águas para a França e para a Europa. Mais do que escolher um presidente, os franceses decidirão se desejam aprofundar a ruptura com o sistema tradicional ou reconstruir uma alternativa democrática capaz de responder às angústias sociais sem recorrer aos extremos. O maior risco não está na existência de diferentes ideologias, indispensáveis à democracia, mas na incapacidade de transformá-las em projetos de país.