Quando a imprudência torna-se um espetáculo
Quando a imprudência torna-se um espetáculo
Há algo de profundamente perturbador em assistir a uma criança de dois anos no colo do pai enquanto um Porsche acelera pelas ruas e rodovias. Não se trata apenas de uma infração de trânsito, de um carro de milhões de reais ou de um vídeo que circula pelas redes sociais. Trata-se da banalização do risco e da transformação da imprudência em entretenimento.
O caso investigado pela Polícia Civil de Campinas expõe uma distorção perigosa de valores. Segundo as investigações, o proprietário de um Porsche GT3 RS, avaliado em mais de R$ 2 milhões, teria sido flagrado em diferentes situações de alta velocidade e manobras perigosas. Em uma das gravações, a criança aparece no colo do pai, com as mãos no volante, enquanto o veículo chega a 109 km/h. Em outro vídeo, o carro teria ultrapassado 260 km/h na Rodovia dos Bandeirantes.
É importante ressaltar que se trata de uma investigação e que cabe à Justiça estabelecer responsabilidades. Mas há uma questão que independe do desfecho jurídico: colocar uma criança naquela situação é uma demonstração assustadora de irresponsabilidade.
O problema se torna ainda maior quando esse comportamento é transformado em conteúdo para as redes sociais. A lógica da audiência pode criar uma espécie de competição pela próxima imagem mais ousada, mais absurda ou mais perigosa. O risco deixa de ser um limite e passa a ser justamente aquilo que garante curtidas, seguidores e visualizações.
E aqui está uma das faces mais preocupantes do episódio. Quando adultos exibem comportamentos perigosos como demonstração de poder, coragem ou status, não estão apenas colocando suas próprias vidas em risco. Estão ensinando. Crianças aprendem pelo exemplo muito antes de compreenderem discursos sobre certo e errado.
A velocidade de um automóvel pode ser medida pelo velocímetro. A dimensão da irresponsabilidade, não. Um carro de luxo pode custar milhões, mas nenhuma fortuna compra uma vida de volta depois de uma tragédia. E numa rodovia, o risco não fica restrito ao motorista. Uma manobra irresponsável pode atingir famílias inteiras que nada têm a ver com a imprudência de quem está ao volante.
Por isso, o episódio também deve servir de alerta sobre os limites da liberdade individual. Ninguém tem o direito de transformar as estradas públicas em pista particular, nem de colocar terceiros em perigo para produzir conteúdo.
A operação que apreendeu o Porsche e um celular mostra que as forças de segurança estão acompanhando também aquilo que é publicado nas redes e que crimes de trânsito podem deixar de ser invisíveis quando os próprios autores fazem questão de registrá-los.
Mais do que apreender veículos ou aplicar multas, porém, a sociedade precisa discutir a cultura que transforma a imprudência em espetáculo. Porque o verdadeiro sinal de status não está na potência de um motor, na velocidade atingida ou na quantidade de seguidores. Está na capacidade de compreender que, numa estrada, a vida dos outros também está nas nossas mãos.