O pesadelo ocorrido na última terça no Supremo Tribunal Federal ilustra a situação de um país que deixou de sonhar. Melhor, que passou a cultivar a quimera da desgraça alheia, que almeja apenas derrotar o que considera a representação do mal: o ódio que o Brasil aprendeu a amar parece derrotar qualquer esperança.
É como se tivéssemos adotado como lema a frase escrita no portão de entrada do Inferno em "A divina comédia", de Dante: "Deixai toda esperança, vós que entrais". Demonstramos até uma certa alegria ao pronunciá-la, um conformismo com a impossibilidade de dias melhores. O mais importante não é ser feliz, mas impedir o gozo alheio.
A campanha em banho-maria dos dos principais candidatos à Presidência ilustra esse desalento. Em sua sétima disputa pelo Palácio do Planalto, Lula (PT) está longe de despertar o entusiasmo que, em tempos idos, contagiou boa parte do país. Ele sequer consegue repetir o que ocorreu há quatro anos, quando sua vitória indicava a única alternativa ao bolsonarismo.
Além do pacto contra a extrema-direita havia, em 2022, a perspectiva de uma reconstrução e de busca de um amanhã. Hoje, mesmo diante da disputa com o mesmo grupo político, o petista não consegue apontar para novas alternativas, é como se conseguisse apenas projetar um futuro no pretérito — isso é pouco para um país que tanto mudou.
É mais do que razoável que ele, formado no sindicalismo, insista na valorização do trabalho de carteira assinada, na briga por salários, que continue a ressaltar o papel da educação. Mas esses temas demonstram ser limitados para uma juventude que tem pressa, que precisa ganhar dinheiro logo, que não aguenta mais a reprodução da pobreza, geração após geração.
A candidatura de Flávio Bolsonaro também está longe de gerar o entusiasmo verificado em 2018, quando seu pai, Jair, foi alçado ao posto de representante do contra-tudo-que-está-aí e, do seu jeito, protagonizou a ideia de mudança. Hoje, a possibilidade de vitória do senador existe porque ele representa o único obstáculo viável a Lula. Existe em função do petista, que, como na canção de Francis Hime e Chico Buarque, é adorado pelo avesso pelos que votarão no nome sacramentado pelo PL.
Outro dia, a Folha de S. Paulo publicou reportagem com mulheres que, em 2002, participaram de um clipe da campanha de Lula que se tornaria célebre, o de grávidas que, ao som do "Bolero" de Ravel caminhavam por uma colina. No comercial, um texto narrado por Chico Buarque frisava que a mudança do país dependia da mudança de cada eleitor.
Em 2026, o país que trocou o sim pelo não demonstra estar preso no pântano do ódio — não se importa em submergir, desde que seu inimigo afunde antes. Vale citar Chico pela terceira vez: vivemos como se o futuro nos tivesse sido arrancado, como aguardássemos o revés de um parto, de olhos fixos em outro dístico de cemitério, "Nós que aqui estamos, por vós esperamos".
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