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A Vila, novamente, canta e conta a luta pela terra

Com 'Torto arado', Haddad e Bora levam do sertão baiano à Avenida a briga pela terra, a fé do jarê e uma encantada que viu tudo e resolveu contar

A Vila, novamente, canta e conta a luta pela terra
Imagem da Vila Isabal no Desfile das Campeãs de 2026 Crédito: Alexandre Macieira/Riotur

O livro começa com uma faca guardada numa mala velha, duas irmãs curiosas demais e uma dor que vai durar a vida inteira. Não é, digamos, o assunto predileto de uma avenida de desfiles que costuma preferir confete. A Unidos de Vila Isabel decidiu encarar mesmo assim, e vai atravessar a Marquês de Sapucaí com um dos romances mais premiados da literatura brasileira recente: "Torto arado", de Itamar Vieira Junior, publicado em 2019 e vencedor do LeYa, do Jabuti e do Oceanos.

O enredo se chama "Torto arado - sobre a terra há de viver sempre o mais forte" e foi anunciado em 13 de maio de 2026, data que a escola escolheu a dedo para lembrar que a Abolição não terminou o assunto. A história se passa na fazenda Água Negra, onde as famílias de trabalhadores moram em troca de trabalho, plantam o que não fica pra elas e aprendem cedo que teto e terra são coisas diferentes.

Quem conta a história é uma encantada: Santa Rita Pescadeira, testemunha de uma comunidade quilombola que reza, planta e resiste. Há ainda uma estreia: o jarê, religião de matriz africana da Chapada Diamantina, que nunca havia passado na Sapucaí. Quem leu o livro vai se reconhecer na Avenida; quem não leu vai sair correndo atrás dele.

O desafio de transformar o romance em carros alegóricos e fantasias não é simples: livro tem páginas, desfile tem oitenta minutos e nenhuma vírgula. Leonardo Bora avisa que a ideia é outra: "Obviamente, não será uma tradução literal." Gabriel Haddad conta que o tema vem sendo pensado desde 2023, o que, em tempo de carnavalesco, equivale a uma gestação de elefante. Do outro lado, o autor aprovou: "É uma honra ver essa história ocupar a Avenida e encontrar o povo."

A dupla chega ao segundo ano de Vila Isabel com crédito. Estreou no Grupo Especial em 2020, pela Grande Rio, e em 2022 ganhou o primeiro título da história da escola de Caxias, com "Fala, Majeté! Sete chaves de Exu". Em 2026, já na Vila, mostrou Heitor dos Prazeres no desfile "Macumbembê, Samborembá" e terminou em terceiro, na briga pelo título. A pesquisa agora é de Vinícius Natal, que traz uma frase de Analimar, filha de Martinho da Vila: "A Vila é uma escola de luta."

Luta, de fato, é parte da herança. A azul e branco da Avenida 28 de Setembro tem três títulos no Especial: 1988, com o histórico "Kizomba", no ano do centenário da Abolição, 2006 e 2013. Neste último, cantou o Brasil como "celeiro do mundo". Em 2027, pergunta de quem é a terra onde o celeiro foi plantado. Nos últimos cinco carnavais foi quarta, terceira, sexta, oitava e de novo terceira, oscilando entre a vizinhança do título e o meio da tabela. Depois de orixás, assombrações e sonhos de África, a escola desce à terra. Literalmente.

De alguma forma, trata-se de um retorno ao passado. Em 1990, a Vila desfilou com "Se essa terra fosse minha…", uma evocação pela reforma agrária num Brasil que havia só dois anos antes promulgado sua nova Constituição.

E Martinho, claro, está novamente no meio desse contexto. Presidente de honra aos 88 anos, assina o samba ao lado de Evandro Bocão e André Diniz, depois de uma final polêmica, quando a direção reverteu a decisão de promover uma junção de sambas.

Tinga segue no microfone, o casal Raphael Rodrigues e Dandara Ventapane leva o pavilhão, Alex Neoral e Márcio Jahú assinam a comissão de frente e Sabrina Sato reina na bateria de Macaco Branco.

A Vila será a quarta escola do domingo de Carnaval, 7 de fevereiro. Na Sapucaí, terra onde todo mundo pisa e poucos perguntam de quem é.


FICHA TÉCNICA

Escola: GRES Unidos de Vila Isabel

Fundação: 4 de abril de 1946

CORES: Azul e branco

Presidente: Luiz Guimarães

PRESIDENTE DE HONRA: Martinho da Vila

Enredo: "Torto arado - sobre a terra há de viver sempre o mais forte"
Desfile: domingo, 7 de fevereiro de 2027 (4ª escola) Carnavalescos: Leonardo Bora e Gabriel Haddad
Pesuisa: Vinícius Natal

DIRETOR DE CARNAVAL: Moisés Carvalho

Intérprete: Tinga

Mestre-sala e porta-bandeira: Raphael Rodrigues e Dandara Ventapane

Bateria: Macaco Branco

Rainha de bateria: Sabrina Sato

Comissão de frente: Alex Neoral e Márcio Jahú

TÍTULOS NO GRUPO ESPECIAL: 1988, 2006 e 2013

SAMBA-ENREDO

Compositores: Martinho da Vila, André Diniz e Evandro Bocão

Sou a voz da encantaria

Das memórias e magias

Tortuosa travessia que o destino reservou

E a poeira anuviou

A cobiça inebriante lapidava diamantes

Num terreno traiçoeiro

Muito rico e feiticeiro

Era tanta terra pra plantar

Quando a pedra parou de cantar

Não é doce o mel da cana, sinhá

E adeus pra Caxangá

Água Negra, sol abrasador, casa de barro

E uma gente de valor

Na brincadeira, o batuque do jarê

Rodo na gira do corpo pra corpo benzer

À luz do velho Nagô, o lume de um lampião

O caruru na tijela, comendo com a mão

O caruru na tijela, comendo com a mão à luz

Do velho Nagô, o lume de um lampião

Rodo na gira do corpo pra corpo benzer

Na brincadeira, o batuque do jarê

Mas tudo não finda quando cai o curador

A professora da as mãos à profetiza

Nos dramas, na lida, na fé e no amor

Mulheres destemidas não se calam

Contra injustiças e grilhões

E a luta pela terra vai seguindo gerações

A semente que ficou, é se juntar

Dividir o que plantou, e se a vida derrubar

Sou eu que enxugo o pranto,

Sou eu de azul e branco

Na favela ou no campo, te levanto pra lutar

Nas páginas de um livro admirado

Torto Arado é retrato brasileiro

A nossa Vila, mais que uma escola

Aguerrida quilombola, risca o chão desse terreiro

Vila, mais que uma escola aguerrida

Quilombola, risca o chão desse terreiro

(Vamos lá, Vila Isabel!!!)