O livro começa com uma faca guardada numa mala velha, duas irmãs curiosas demais e uma dor que vai durar a vida inteira. Não é, digamos, o assunto predileto de uma avenida de desfiles que costuma preferir confete. A Unidos de Vila Isabel decidiu encarar mesmo assim, e vai atravessar a Marquês de Sapucaí com um dos romances mais premiados da literatura brasileira recente: "Torto arado", de Itamar Vieira Junior, publicado em 2019 e vencedor do LeYa, do Jabuti e do Oceanos.
O enredo se chama "Torto arado - sobre a terra há de viver sempre o mais forte" e foi anunciado em 13 de maio de 2026, data que a escola escolheu a dedo para lembrar que a Abolição não terminou o assunto. A história se passa na fazenda Água Negra, onde as famílias de trabalhadores moram em troca de trabalho, plantam o que não fica pra elas e aprendem cedo que teto e terra são coisas diferentes.
Quem conta a história é uma encantada: Santa Rita Pescadeira, testemunha de uma comunidade quilombola que reza, planta e resiste. Há ainda uma estreia: o jarê, religião de matriz africana da Chapada Diamantina, que nunca havia passado na Sapucaí. Quem leu o livro vai se reconhecer na Avenida; quem não leu vai sair correndo atrás dele.
O desafio de transformar o romance em carros alegóricos e fantasias não é simples: livro tem páginas, desfile tem oitenta minutos e nenhuma vírgula. Leonardo Bora avisa que a ideia é outra: "Obviamente, não será uma tradução literal." Gabriel Haddad conta que o tema vem sendo pensado desde 2023, o que, em tempo de carnavalesco, equivale a uma gestação de elefante. Do outro lado, o autor aprovou: "É uma honra ver essa história ocupar a Avenida e encontrar o povo."
A dupla chega ao segundo ano de Vila Isabel com crédito. Estreou no Grupo Especial em 2020, pela Grande Rio, e em 2022 ganhou o primeiro título da história da escola de Caxias, com "Fala, Majeté! Sete chaves de Exu". Em 2026, já na Vila, mostrou Heitor dos Prazeres no desfile "Macumbembê, Samborembá" e terminou em terceiro, na briga pelo título. A pesquisa agora é de Vinícius Natal, que traz uma frase de Analimar, filha de Martinho da Vila: "A Vila é uma escola de luta."
Luta, de fato, é parte da herança. A azul e branco da Avenida 28 de Setembro tem três títulos no Especial: 1988, com o histórico "Kizomba", no ano do centenário da Abolição, 2006 e 2013. Neste último, cantou o Brasil como "celeiro do mundo". Em 2027, pergunta de quem é a terra onde o celeiro foi plantado. Nos últimos cinco carnavais foi quarta, terceira, sexta, oitava e de novo terceira, oscilando entre a vizinhança do título e o meio da tabela. Depois de orixás, assombrações e sonhos de África, a escola desce à terra. Literalmente.
De alguma forma, trata-se de um retorno ao passado. Em 1990, a Vila desfilou com "Se essa terra fosse minha…", uma evocação pela reforma agrária num Brasil que havia só dois anos antes promulgado sua nova Constituição.
E Martinho, claro, está novamente no meio desse contexto. Presidente de honra aos 88 anos, assina o samba ao lado de Evandro Bocão e André Diniz, depois de uma final polêmica, quando a direção reverteu a decisão de promover uma junção de sambas.
Tinga segue no microfone, o casal Raphael Rodrigues e Dandara Ventapane leva o pavilhão, Alex Neoral e Márcio Jahú assinam a comissão de frente e Sabrina Sato reina na bateria de Macaco Branco.
A Vila será a quarta escola do domingo de Carnaval, 7 de fevereiro. Na Sapucaí, terra onde todo mundo pisa e poucos perguntam de quem é.
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