28° Festival do Rio

A despedida de uma disputa eivada de brasilidades

Grifes autorais e expressões poéticas encerram a corrida pelo troféu Redentor de 2026

A despedida de uma disputa eivada de brasilidades
Rejane Faria emprega com precisão seu vasto ferramental dramático em Vicentina Pede Desculpas, exibido em San Sebastián (Donostia) no páreo da Concha de Ouro Crédito: Divulgação/ Netflix


Duas narrativas documentais ligadas a expressões artísticas radicais e uma ficção sobre a volta por cima (possível) de uma tragédia encerram, nesta sexta-feira, a grade de longas nacionais em disputa pelos troféus da Première Brasil, todos com projeção no Estação Claro Gávea das 17h à 0h. É dia de "Cão Sem Plumas", de Camila Valença; "Elza", de Eryk Rocha; e "Vicentina Pede Desculpas", de Gabriel Martins. Com eles, termina a seleção 2026 da mostra competitiva que, ao longo das últimas duas décadas e meia, virou a menina dos olhos do Festival do Rio, na triagem das muitas brasilidades desta nação.

Inspirado por João Cabral de Mello Neto (1920-1999), "Cão Sem Plumas" viaja do Agreste ao mar, flanando pelo rio Capibaribe, numa interseção de versos com a dança de Deborah Colker. O exercício de não ficção de Eryk Rocha põe o realizador de "Cinema Novo" (2016) nos rastros de Elza Soares (1930-2022), para entender como ela virou porta-voz das pautas identitárias das mulheres pretas do país.

Último filme da grade competitiva da Première a estrear, o drama mineiro "Vicentina Pede Desculpas", novo longa de Gabriel Martins, de "Marte Um" (2022), concorreu à Concha de Ouro do Festival de San Sebastián, na Espanha, há duas semanas. Passou antes pelo TIFF, o Festival de Toronto, e, em novembro, estreia na Netflix. Estrelado por Rejane Faria, o novo trabalho da badalada produtora das Gerais Filmes de Plástico acompanha uma aposentada de 75 anos que procura as famílias das vítimas de um acidente de ônibus provocado pelo filho, morto na tragédia, depois que surgem suspeitas de que ele teria derrubado intencionalmente o veículo de um viaduto.

Até o momento, os concorrentes que mais brilharam foram "Funk", de Aly Muritiba; o desenho animado "O Filho da Puta" (sobretudo no trabalho de Matheus Nachtergaele, dando voz ao cão Bacalhau); o thriller queer "A Margem do Rio", em especial pela fotografia de Luciana Baseggio; e o desempenho de Nanda Costa em "Maria de Maria", além dos .docs "Fui Olhar Você Dormir", de Anna Azevedo, e "Uma Missa Para Dom Angélico", de Emília Silveira. Tópicos como alcoolismo, busca por figuras paternas ausentes e corrida por perdão foram recorrentes no evento, que eternizou, fora de concurso, um longa magistral: "Overman", de Tomás Portella, a comédia que melhor dialogou com as referências gráficas das HQs ao levar as tiras da Laerte à telona, com um Caco Ciocler tomado pelos espíritos da invenção (e do riso).

No domingo, um júri presidido pela produtora espanhola Esther García anuncia a premiação, em cerimônia no Odeon.