Cinema

Thiago Calçado, o brasileiro que revolucionou Hollywood

Em conversa com o Correio, o animador reflete sobre a carreira, recheada de grandes sucessos, e revela os bastidores de 'O Bosque Selvagem', hit da Laika que promete fazer bonito na temporada de premiações

Thiago Calçado, o brasileiro que revolucionou Hollywood
Após animar a Morte, em Pinóquio, Thiago pediu para animar os cavalos de "O Bosque Selvagem", que tinham 300 peças móveis Crédito: Divulgação

Quando se fala em animações stop-motion, um nome 100% brasileiro se destaca no cenário internacional: Thiago Calçado. Natural de Uberaba, Minas Gerais, Calçado tem uma parceria de longa data com o diretor e CEO do Laika Studios, Travis Knight, com quem animou uma das mais impressionantes e premiadas obras do estúdio: Kubo e as Cordas Mágicas (2016). Agora, dez anos depois, eles repetem a dobradinha para trazer ao mundo “O Bosque Selvagem”, uma animação que revolucionou a técnica do stop-motion e agora está disponível nos cinemas brasileiros, com a promessa de brilhar na próxima temporada de premiações.

Inspirado na saga de livros infanto-juvenis homônima, o filme acompanha a jornada de Prue McKeel, uma menina que vê seu irmãozinho caçula ser sequestrado por uma horda de corvos. Ao lado de Curtis, seu amigo medroso, mas curioso, ela adentra o bosque selvagem, uma área estritamente proibida pelos pais, para tentar resgatar o pimpolho. Porém, o que ela encontra por lá é um verdadeiro reino tomado pela tirania de uma viúva mística, que encheu a mata com seu exército de coiotes. Agora, Prue e Curtis tentarão sobreviver a esse ambiente hostil, enquanto procuram formas de salvar o bebê McKeel.

Antes de brilhar na Laika, Thiago construiu uma carreira muito interessante, tendo trabalhado na primeira animação stop-motion do Brasil, “Minhocas” (2013). Ele também trabalhou em fenômenos como “Ilha dos Cachorros” (2018), de Wes Anderson, e no vencedor do Oscar de Melhor Animação, “Pinóquio” (2022), de Guillermo Del Toro. Ao Correio da Manhã, Thiago avaliou o atual momento de sua carreira e aconselhou os brasileiros que sonham em virar cineastas a não desistirem.

– Acho que, nessa fase da minha carreira, eu estou colhendo os frutos de mais de 20 anos dedicados à animação, em especial o stop-motion. Tendo trabalhado em grandes produções, com grandes diretores, adquiri muito conhecimento, muita experiência e muita prática. Eu pratiquei bastante nesses anos todos, quase que diariamente. E hoje eu consigo contar minhas próprias histórias por conta de toda essa bagagem. E esse é o meu objetivo agora. Desde que voltei ao Brasil, tenho trabalhado com publicidade e, paralelamente, desenvolvendo projetos autorais pessoais, com temáticas brasileiras, trazendo pontos da minha vida pessoal e da nossa cultura – disse.

– E o meu conselho para quem está começando é que não existe atalho. Você tem que trabalhar. Se você quer ser animador, você tem que animar. Arruma um boneco e sai animando. Se você quer ser escritor, roteirista, você tem que escrever. E se você quer trabalhar com boneco, você tem que fazer boneco. Então, assim, precisa de um portfólio para entrar na nossa indústria, por isso você tem que produzir. Por mais que alguém possa te indicar, para você se manter, você vai precisar mostrar alguma experiência, seja em trabalhos autorais, com coisas que você mesmo desenvolveu e criou, ou trabalhos que você fez para os outros. O caminho é difícil, mas não é impossível. Tenta sempre dedicar a fazer o melhor que você pode, porque caso não dê certo em algum projeto, pelo menos você vai ter a consciência tranquila de dizer que o melhor foi tentado, entendeu? O ruim é você não conseguir dar seguimento num projeto porque você não tentou, né? Mas se você tentou e não foi dessa vez, você deu o seu melhor e teve um aprendizado. Eu mesmo levei muitos foras, muitos nãos da própria LAIKA até conseguir entrar. E não desista, né? Só fracassa quem desiste. Alguém disse um dia que "são ásperos e tortuosos os caminhos até as estrelas, mas certamente um dia lá chegaremos” – aconselhou Thiago.

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O animador Thiago Calçado nos bastidores de 'O Bosque Selvagem', novo hit da Laika que vem forte para a temporada de premiações | Foto: Divulgação

Sobre o filme em si, o animador reconheceu o grande trabalho feito e compartilhou o segredo para a maior revolução do projeto: a fluidez impecável da animação.

– O segredo para uma animação fluida e orgânica é: primeiro, a gente tem tempo para praticar a cena. A gente não chega na produção e já faz uma cena de primeira, não. A gente fica um tempo estudando o boneco, nos familiarizando, pegando as manhas do boneco, sabe? Aonde é que ele dobra, qual é o tipo de pressão que você tem que colocar na estrutura para conseguir mover ele milimetricamente… Então, tudo isso vai deixando você, animador, confortável com a peça que vai trabalhar. E o segundo ponto é ensaiar, né? Depois que você praticou, você ensaia as cenas. Na LAIKA, a gente chega a fazer três vezes a cena. Em alguns movimentos mais complexos, a gente faz quatro. Primeiro a gente faz as poses-chaves, depois a gente faz um movimento um pouco mais intervalado, a 12 quadros por segundo, e depois a gente vai para os 24 quadros por segundo, que é o número de quadros da cena final. Durante esse processo, em cada etapa, a gente conversa com o diretor, que vai te dando direções claras do que ele quer para a cena, onde pode melhorar, onde pode ser mais rápido, onde pode ser mais lento. Então é isso, é um misto de prática com ensaio, e respeito ao tempo do artista para produzir o melhor que ele tem, para poder extrair o melhor dele – contou.

Sobre essa questão de respeitar o tempo, algo cada vez mais custoso em Hollywood, Calçado valorizou a parceria com a Laika justamente por deixar que os artistas tomem o tempo necessário para fazerem o melhor.

– Por mais que a gente tenha um prazo, na Laika, ele é um pouco maior do que em outros estúdios, justamente pra gente conseguir entregar o melhor que a gente pode. Ou seja, é um tipo de pressão diferente, né? Porque se você tem que entregar rápido, a pressão é entregar visando a quantidade. Na Laika você precisa entregar qualidade. Todos os elos da corrente em volta vão trabalhar para que você, na ponta, sendo o último elo, consiga entregar o seu melhor – contou.

Com o lançamento do filme nos cinemas de todo o mundo, a crítica vem sendo unânime: “O Bosque Selvagem” é a melhor animação de 2026. Com isso, já existe uma expectativa de que o tão sonhado Oscar da Laika enfim venha, após algumas derrotas injustificáveis na história da premiação. Para Thiago, com todo o respeito aos possíveis concorrentes, o filme ganhará o Oscar, mesmo que não seja esse o principal objetivo do projeto.

– Cara, eu acho que chegou a hora da Laika ganhar. Eu assisti o filme hoje de novo, pela terceira vez. Agora assisti com os meus filhos, e é um baita filme, cara. É um baita filme! Direção de arte impecável, ritmo de montagem, fotografia, música, efeitos especiais… Eu arrisco dizer que vai ter quatro indicações e vai levar pelo menos uma delas, que eu acho que leva a de melhor filme de animação. E arrisco dizer que venha a [indicação a] melhor fotografia, o que seria um feito inédito e grande, porque é um prêmio técnico muito relevante, que a animação precisa, né? Porque muitas vezes a animação é vista como o patinho feio, mas a fotografia desse filme está realmente impecável. Acho que também vai ser indicado para melhor efeitos especiais, porque a composição dessas cenas e os efeitos estão primorosos, né? Coisa de filme grande, que ele é, na verdade. E acho que vem aí a inédito indicação de um stop-motion para melhor filme. Posso estar viajando, mas acho que vai ter essas quatro indicações e, se eu pudesse apostar, eu ia all-in que leva a melhor animação de 2026. Esse aí eu já cravo com 90% de chance, porque é um filme lindo. As pessoas se emocionam, você não vê ninguém falando mal. Tá irretocável, cara. Irretocável o filme. E o Travis [Knight] se revela aí um baita diretor. Já era, né? Em Kubo, eu acho Kubo um filme lindo também, mas agora esse aí é o filho favorito dele. Foi feito com muito carinho e tanto tempo de produção. Mas é isso, pode cravar aí: vai ganhar! – previu.

Por fim, Thiago falou mais sobre o que espera dessa nova fase da carreira que está vivendo e ressaltou que quer mesmo contar histórias da cultura brasileira.

– Como eu disse, acho que agora é a nossa vez de contar as nossas histórias, né? Eu cresci e me desenvolvi contando histórias de outras culturas, e não falo isso de forma pejorativa nem nada. Mas agora é a minha vez de contar as minhas histórias, as nossas histórias do Brasil, para o mundo também conhecer. E uma frase que eu gosto muito, que uma vez eu ouvi, era assim: "a gente não mede o sucesso pelo que a gente conquistou, a gente mede o sucesso pelas coisas que a gente abriu mão para conquistá-lo”. Então, por mais que seja uma carreira relativamente bonita, de ter feito vários filmes legais, eu abri mão de muita coisa para alcançá-la, né? De estar em outro país, inserido em outra cultura, viver longe da família, longe dos amigos… Você tem que se adaptar ainda mais, falar outra língua. Só que a gente acaba esquecendo tudo isso no caminho, né? Mas não há arrependimento, é só uma constatação do que a gente abre mão para conquistar. E agora que voltei ao Brasil, quero poder falar mais dessa vida para o mundo – concluiu.