ENTREVISTA

'Não precisamos procurar fora aquilo que já construímos aqui'

'Não precisamos procurar fora aquilo que já construímos aqui'
Elisa Tolomelli, produtora Crédito: Marcelo Magnani/Divulgação


Cerca de um ano e meio atrás, o Correio da Manhã abriu página para Elisa Tolomelli, uma das produtoras mais prolíficas do país falar sobre literatura, comentando sua experiência na escrita, com "E Lá Fui Eu" (editora Literate Books). Ela virou prosadora com esse livro de memórias - uma joia! - que serve de cartilha para quem quer aprender a filmar. Num piscar de olhos, em meio a novos projetos para as telas, como o esperado "Só Não Posso Dizer o Nome", do artesão autoral mineiro Helvécio Ratton, o bichinho da prosa mordeu de novo, e ela publicou uma nova delícia de ler: "Cinema na Prática - O Método Elisa Tolomelli de Produção Executiva". É um apanhado teórico, mas voltado para quem quer por a mão na massa.

Dos anos 1990 para cá, Elisa produziu de um tudo, de thrillers ("Berenice Procura") a comédias ("Tire 5 Cartas"), numa trajetória profissional que tem "Central do Brasil" (Urso de Ouro da Berlinale de 1998) e "Cidade de Deus" (blockbuster indicado a quatro Oscars) em seu currículo. Antes trabalhou no inesquecível "A Menina do Lado" (1987), de Alberto Salvá, e rodou um longa-metragem, "Manobra Radical" (1991), joinha que arrastou galeras noventistas ao circuito, num tempo de seca da filmografia nacional.

O tantão de histórias que contou pelas telas e que viveu nos sets, sobretudo depois que fundou a produtora EH! Filmes, rende uma leitura daquelas que nos grudam nas páginas. O papo a seguir é sobre as descobertas que ela fez entre sujeitos e predicados, entre ditongos e tritongos, pondo "Ação!" e "Corta!" no papel.

Neste segundo livro, de que maneira a intimidade maior com a palavra te permite enxergar melhor (e traduzir melhor) seu olhar sobre como se faz cinema?

Elisa Tolomelli - No meu primeiro livro, "E lá fui eu!", exercitei uma forma de escrever muito próxima da maneira como eu falo. Foi algo natural, porque nunca tinha escrito um livro e escrevi do jeito que sabia. A resposta dos leitores foi muito positiva, tanto que o livro se tornou um best-seller. Muita gente comentou sobre a fluidez do texto, a facilidade da leitura, sobre começar a ler e não querer parar. Quando comecei a escrever "Cinema na Prática", que é um livro mais teórico, quis preservar essa mesma linguagem. O desafio era encontrar uma forma simples e acessível de transmitir um conhecimento complexo: o raciocínio estratégico que a produção executiva exige. Acredito que essa linguagem aproxima o leitor do meu olhar sobre o cinema. Ao compartilhar a maneira como penso, planejo e tomo decisões para realizar um filme, procuro oferecer ferramentas para que cada pessoa desenvolva seu próprio olhar e seu próprio raciocínio de produção. Mais do que ensinar como eu faço cinema, quero ajudar o leitor a descobrir como ele pode fazer o seu.

O que mais dificulta - hoje, em tempos de IA - o ofício da produção executiva?

Eu não acredito que seja a inteligência artificial que determine as maiores dificuldades da produção executiva. O que mais dificulta o exercício da profissão é a falta de compreensão que produzir cinema exige, fundamentalmente, planejamento e gestão. Quando olho para trás, lembro de "Central do Brasil", meu primeiro filme como produtora executiva, rodado em película de 35 mm. E penso em "Só Não Posso Dizer o Nome", dirigido pelo Helvécio Ratton, meu trabalho mais recente, filmado em 4K e que chega aos cinemas neste mês de novembro. A tecnologia transformou profundamente a maneira como fazemos filmes. Saímos da película 35 mm para o digital, desenvolvemos câmeras e equipamentos cada vez mais sofisticados e agora temos a inteligência artificial ampliando nossas possibilidades de criação e produção. Essa evolução nos deu condições técnicas de realizar filmes no Brasil que não ficam atrás de nenhuma cinematografia do mundo. Mas existe algo que não mudou e não vai mudar nunca: todo filme, independentemente de seu tamanho, orçamento ou tecnologia empregada, precisa de planejamento e gestão. É isso que procuro transmitir em "Cinema na Prática". As ferramentas evoluem, mas o/a produtor/a executivo/a precisa saber pensar a produção, estudar cada projeto, antecipar dificuldades, tomar decisões e gerir os recursos disponíveis.

Que casos marcantes talharam teu olhar e construíram o método de que você fala no livro?

Não acredito que tenha sido um caso específico, ou mesmo alguns casos, que construíram meu olhar e o método que apresento no livro. Foi o conjunto das experiências que vivi, produzindo filmes de diferentes portes, gêneros e propostas artísticas, somado a algo que considero fundamental para qualquer produtor executivo: a curiosidade e o estudo permanente sobre o fazer cinema. Agora, por exemplo, estou me preparando para produzir "A Fita", um filme de terror, gênero em que nunca trabalhei e que estou empolgadíssima para explorar. Isso significa mergulhar em um novo universo, compreender sua linguagem e descobrir os desafios específicos que essa produção vai apresentar. Quanto maior o nosso repertório, maior a nossa capacidade de encontrar caminhos para realizá-lo.

Que filme estrangeiro recente mais te impressionou acerca da produção e o que dele poderia ser aplicado na construção de uma identidade brasileira de fazer longas-metragens?

"Uma Batalha Após a Outra", do Paul Thomas Anderson. É um filme incrível pela construção narrativa e pela maneira como os diferentes elementos da produção se articulam, especialmente a trilha sonora, que considero espetacular. A música tem um papel fundamental na construção da tensão e do senso de urgência que atravessam o filme. Ela acompanha e pontua os momentos vividos pelos personagens, intensificando as emoções e conduzindo o espectador pela narrativa. Mas acredito que nós já temos uma identidade cinematográfica própria, plural e riquíssima, que se manifesta na diversidade de histórias, linguagens e formas de realização dos nossos filmes. O cinema brasileiro tem uma trajetória de enorme potência criativa e uma capacidade de realização que não fica atrás das grandes cinematografias internacionais. Podemos dialogar com o cinema do mundo inteiro, mas não precisamos procurar fora aquilo que já construímos aqui.

Que filme, de toda a sua obra, mais deu trabalho e, hoje, mais dá prazer?

muitos filmes me deram muito trabalho e muitos continuam me proporcionando um enorme prazer e orgulho, mas existem dois filmes que têm um lugar muito especial na minha história: "Central do Brasil" e "Cidade de Deus". "Central do Brasil" é o meu filme do coração. Foi minha primeira experiência como produtora executiva em um longa-metragem. Filmamos no interior do Nordeste, em cidades muito pequenas e com pouca estrutura. Já "Cidade de Deus" foi uma produção de enorme complexidade, que exigiu muito de toda a equipe. A pré-produção levou quase um ano e me ensinou a importância de uma gestão eficiente, tanto de pessoas quanto de recursos. O que mais me impressiona nesses dois filmes é a longevidade. São obras que atravessaram gerações, continuam sendo vistas, discutidas e admiradas.

Rodrigo Fonseca Especial para o Correio da Manhã