Dança

Aquilo que as éguas sabem

'Equina', espetáculo de dança idealizado por Aline Bernardi e Dani Lima, investiga alianças entre humanos e não-humanos

Aquilo que as éguas sabem

Um cavalo não precisa ser domado para virar parceiro — é essa aposta que sustenta "Equina", espetáculo de dança criado pelas artistas-pesquisadoras Aline Bernardi e Dani Lima, que volta em cartaz de domingo (7) no Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto. A obra propõe uma fabulação em torno das relações colaborativas entre humanos e não-humanos: que alianças podem ser cultivadas entre as espécies? É possível criar amizade e parentesco com cavalos e éguas? A narrativa afetuosa busca pensar políticas de cuidado e a manutenção da vida a partir dessas relações interespécies.

A criação é desdobramento da pesquisa de doutorado de Aline, que também está em cena, no Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena da UFRJ. "A aposta desta obra é investigar de forma fabulatória como as ecologias relacionais e as alianças interespécies podem propor modos de reparação micropolítica em um mundo danificado", explica a bailarina e pesquisadora. "A criação é um desdobramento da minha pesquisa de doutorado, que fabula memórias da relação de amizade e parentesco que tenho com cavalos e éguas", completa.

As raízes da pesquisa remontam à infância de Aline, que morou na zona rural do oeste paulista e conviveu de perto com os cavalos de uma fazenda onde seu pai trabalhava. Desse arquivo pessoal, o espetáculo dialoga com as pesquisadoras Donna Haraway, Vinciane Despret e Anna Tsing e articula as três dimensões da ecologia definidas pelo filósofo e psicanalista Félix Guattari — a das subjetividades, a social e a ambiental — para especular sobre o papel das alianças interespécies na regeneração da vida. A obra investiga ainda as noções de convivência e as fabulações de simpoiese — o ficar-com, o viver-com — a partir dos gestos de observar, sintonizar, cuidar e cultivar conexões.

E os cavalos são presença na obra. Participam da criação os cavalos Pedro, Apolo e Bolinha (in memoriam) e a égua Lua. "Fazemos um convite para praticarmos parentesco e amizade com outras espécies. Queremos questionar o uso exploratório e extrativista dos cavalos e das éguas, assim como de outras espécies, no processo de civilização humana, que levam às consequências da crise socioambiental que a gente está vivendo. O que me interessa é convocar nossa espécie a cultivar imaginários de interdependência e conexões colaborativas com as outras espécies e com tudo que está vivo em nosso planeta", observa Aline, que também dialoga com as cosmovisões indígenas — as alianças afetivas com outras espécies, conceito de Ailton Krenak.

SERVIÇO

EQUINA

espaço Cultural Municipal Sérgio Porto (Rua Visconde de Silva, s/nº, ao lado do nº 292, Humaitá)

De 7 a 29/11, sábados (19h) e domingos (18h)

Ingressos: R$ 60 e R$ 30 (meia-entrada)