Carnaval

Três meses para afinar o gogó

Sambas saem das quadras das agremiações para os celulares dos entusiastas das 12 escolas do Grupo Especial

Três meses para afinar o gogó
A Viradouro, atual campeã do carnaval, posa unida no intervalo da gravação Crédito: Divulgação Liesa

O carnaval de 2027 ganha trilha sonora oficial nesta quinta-feira (29). Às 21h, o álbum com os 12 sambas-enredo do Grupo Especial entra em todas as plataformas digitais, a pouco mais de cem dias dos desfiles na Marquês de Sapucaí, marcados para 7, 8 e 9 de fevereiro. A partir daí, o samba que o componente aprendeu no grito da quadra ganha versão definitiva, a que vai tocar no ensaio técnico, no carro de som e no fone de ouvido de quem vai desfilar.

O disco é realizado pela Edimusa, a gravadora da Liesa, e tem direção artística de Alceu Maia, que participa do álbum do carnaval há mais de 40 anos. A gravação foi feita entre 21 e 24 de setembro, num estúdio em Jacarepaguá, logo depois da maratona de finais nas quadras. Quatro dias, três escolas por dia.

A conta do número de pessoas envolvidas impressiona. Cada escola levou ao estúdio cerca de 64 pessoas. Só a bateria ocupou 32 lugares, contando mestres e percussões extras. O resto se dividiu entre harmonia, um ou dois intérpretes, oito vozes de coro do carro de som e oito compositores. Para as imagens, entraram ainda o casal de mestre-sala e porta-bandeira e mais seis integrantes, entre baianas, Velha Guarda e rainhas de bateria. Multiplicado por 12, dá perto de 770 sambistas passando pelo estúdio em quatro dias. Por trás deles, outras 105 pessoas cuidaram de montagem, cenografia, iluminação, direção de áudio e produção.

A aposta foi voltar ao vivo, com todos os naipes tocando juntos, em vez de montar a faixa instrumento por instrumento. Quem cresceu com o LP do carnaval na vitrola conhece a diferença entre um samba que respira e um samba de laboratório. Helio Motta, diretor-executivo da Edimusa, explica como a gravadora trabalha com as escolas: "O álbum funciona como uma espécie de pré-campeonato. A gravadora tenta apenas criar uma unidade para deixar o produto coeso, mas cada agremiação é livre para criar o seu arranjo. Todos os artistas envolvidos sabem que estão gravando para a eternidade, por isso é emocionante ver o resultado". As escolas também gravaram clipes, que serão veiculados no YouTube.

Como manda a tradição, a capa homenageia a campeã. A Viradouro, dona do título de 2026, abre o álbum. Para 2027, a escola de Niterói fala dos griôs, os contadores de histórias da África Ocidental que guardam e repassam a memória de seus povos, num enredo de Tarcísio Zanon que liga essa tradição ao próprio samba.

Macaque in the trees
A mangueira chega forte ao estúdio defendendo seu enredo | Foto: Divulgação Liesa

Outra faixa que promete conversa é a da Mangueira. "Oyá por nós", enredo de Sidnei França, foi gravado com Alcione, Maria Bethânia, Leci Brandão e Daniela Mercury ao lado de Dowglas Diniz, intérprete da verde e rosa.

Mangueira não é a única com time de convidados. A Portela gravou o samba de "Ao mestre, com carinho", enredo de Paulo Barros em homenagem a Monarco, com Paulinho da Viola, Zeca Pagodinho, Diogo Nogueira, Teresa Cristina e Marquinhos de Oswaldo Cruz, além da Velha Guarda Show e da família Diniz, herdeiros do homenageado. Diogo tinha concorrido na disputa com outro samba e, mesmo derrotado, foi ao estúdio cantar o vencedor. A voz oficial da escola é de Bruno Ribas.

Macaque in the trees
A Portela rende suas homenagens a Monarco, uma lenda em azul e branco | Foto: Divulgação Liesa

A safra tem cara de estante de biblioteca. A Beija-Flor vai à Ilha de Marajó homenagear a pajé Zeneida Lima. O Salgueiro revisita Xica da Silva em "Laroyê Xica da Silva: a história por trás da história", separando a mulher real do mito. A Imperatriz, de Leandro Vieira, conta em "A memória do rei e o sumiço de Dona Júlia" a história da calunga de um maracatu do Recife que passou mais de 30 anos desaparecida. O Tuiuti leva Tia Ciata, matriarca do samba. A Grande Rio vai à antiga Costa do Ouro, hoje Gana, contar a história dos negros libertos que voltaram à África, e a Mocidade faz um manifesto latino-americano. A Unidos da Tijuca vai ao sertão do Ceará inspirada em "A cabeça do santo", de Socorro Acioli, e a Vila Isabel leva para a avenida as irmãs Bibiana e Belonísia, de "Torto Arado", de Itamar Vieira Junior. A estreante União de Maricá chega ao disco homenageando Darcy Ribeiro.

O álbum chega depois de uma temporada de disputas que mudou de tamanho. As finais nas quadras foram transmitidas pela Rio Carnaval TV, no YouTube, e somaram quase 3 milhões de visualizações. Muita gente vai chegar ao lançamento sabendo a letra de cor. Mesmo assim, é no disco que os 12 sambas passam a ser ouvidos lado a lado, comparados na mesa de bar e cantados como uma obra só. A partir de agora, os ambas vão da quadra para o celular de cada torcedor, que tem pouco mais de três meses para afinar a garganta antes da Sapucaí.

Nossa série semanal revelando os enredos das ecolas do Grupo Especial segue amanhã aqui no #CM2