Teatro

O riso para falar de assuntos sérios

'O Filho das Mães', de João Bethencourt, ganha nova montagem no Teatro Laura Alvim com seu título original após mais de duas décadas

O riso para falar de assuntos sérios
Narjara Turetta, Sergio Fonta e Jalusa Barcellos encabeçam o elenco de 'O Filho das Mães' Crédito: Rodolfo Abreu/Divulgação

João Bethencourt escreveu "O Filho das Mães" em 2005, quando falar de famílias homoafetivas no palco brasileiro era um ato de coragem. Mais de duas décadas depois, a peça volta aos palcos pela primeira vez com seu título original - foi montada por anos com o título "Circuncisão em Nova York" - num tempo em que as configurações familiares que ela trouxe lá atrás estão mais naturalizadas, ainda que o preconceito ainda não seja uma página virada pela sociedade brasileira.

A montagem chega ao Teatro Laura Alvim, em Ipanema, integrando as comemorações do centenário de nascimento do dramaturgo, celebrado desde 2025, e reafirma a atualidade de um autor que escreveu cerca de 30 peças e soube usar a comédia de costumes como bisturi. Bethencourt, que também foi ator e diretor, construiu uma obra em que o riso é a ferrmenta que aproxima o público de questões nada engraçadas.

À frente do espetáculo, um elenco experiente. Jalusa Barcellos comemora cinquentenário de carreira no papel de Sarah, mãe judia que tenta esconder do marido conservador a verdade sobre a filha. Sergio Fonta, com mais de cinco décadas de palco, vive Abraão, empresário preso à tradição. E Narjara Turetta interpreta Miriam, a filha que decide contar à família que mantém um relacionamento com Emily e espera um filho por inseminação artificial.

Miriam revela a verdade à mãe, que a esconde do pai. O doador de esperma, Ralph, é confundido com namorado. Um segundo avô entra na confusão. Tudo converge para a cerimônia judaica de circuncisão — a Brith Milah —, quando os mal-entendidos ameaçam explodir. A diretora Pia Manfroni conduz oito atores — completam o elenco Carlos Loffler, Celso Andre, Duio Botta, Isabella Barros e Rose Scalco — por esse campo minado de revelações e desencontros.

Escrito quando a discussão sobre diversidade familiar ainda engatinhava no Brasil, o texto de Bethencourt antecipou o debate sem jamais abandonar a leveza da comédia, uma reflexão sobre aceitação, respeito e a capacidade de amar para além das fronteiras do hábito.

SERVIÇO

O FILHO DAS MÃES

Teatro Laura Alvim (Av. Vieira Souto, 176 — Ipanema)

Até 26/8, terças e quartas (20h)

Ingressos: R$ 50 e R$ 25 (meia)