O chileno Malicho Vaca Valenzuela nunca sai do lugar. Sentado diante de um computador, com um mapa digital de Santiago aberto na tela, ele atravessa a própria cidade — e o próprio passado — sem levantar do assento. Essa viagem imóvel, nascida no confinamento pandêmico e consagrada em mais de 25 festivais internacionais, entre eles o de Avignon, abriu nesta quinta-feira (17) o FIL - Festival Internacional Intercâmbio de Linguagens no CCBB Rio. Serão dez dias em que o prédio da Rua Primeiro de Março se transforma naquilo que o próprio festival promete ser: um portal de imaginários.
E o portal está largo. Em sua 23ª edição — o FIL existe desde 2003, inventado e dirigido pela dramaturga Karen Acioly —, o festival chega com um selo que poucas realizações cariocas exibem: em 2025, foi declarado Patrimônio Histórico, Cultural e Imaterial do Estado do Rio de Janeiro. Sob o tema "A Poética dos Imaginários", ocupa todos os cantos do CCBB, dos três teatros à Rotunda, do cinema à Sala 26, com teatro, marionetes, circo, ópera, música, artes digitais e cinema. nesta edição o evento ganhou companhia de peso ao integrar a primeira Semana de Arte do Rio, iniciativa da Prefeitura que reúne festivais, exposições e intervenções no Centro até o dia 27.
"Reminiscência" é talvez o mais inquietante dos convidados externos. Vaca Valenzuela chama a obra de "objeto teatral não identificado": um ensaio documental biográfico que costura boleros, histórias de família, amores anônimos e as cicatrizes da ditadura e do estallido social chileno. Do mapa de Santiago, ele desce da Via Láctea até a rua estreita onde três gerações de sua família viveram, perguntando se é possível cartografar uma memória.
Da Argentina vem "Con un kilo de harina", prêmio de Melhor Espetáculo de Objetos na FETEN 2022: um ator, uma bancada de madeira e um quilo de farinha bastam para contar três gerações de migrantes, com a história de Giuseppe, 15 anos, no fio condutor.
E a Espanha manda "NIL", premiado nos festivais de Titirijai e Batumi, em que uma marionete de fio de crista punk tenta desesperadamente abrir uma caixa — metáfora muda do ciclo obsessivo de que ninguém escapa.
Mas o que distingue esta edição é o volume da produção nacional, espalhado pelo nosso próprio mapa. Do Rio, "Azul" — vencedor do prêmio APCA de Espetáculo do Ano — acompanha Violeta, uma menina de 4 anos que busca se aproximar do irmão pelo único caminho que conhece: a música. A montagem aborda o espectro autista pelo olhar infantil, sem didatismo. De São Paulo, "Grande Circo Grandevo" põe em cena uma trupe de circenses envelhecidos, obrigados a reinventar seus números a partir dos limites dos próprios corpos. De Santa Catarina vêm "O Velho Lobo do Mar", aventura de marionetes num Atlântico perdido, e a comédia "Kasperl e a Cerveja do Papa", sobre um frei beberrão, um mosteiro e uma visita indesejada. Para o público jovem, "Batalha Oroboro - rap, repente, resistência" cruza as batalhas de rimas do hip hop com o repente nordestino: no centro, Lyz, uma MC cega, e seu avô, poeta que migrou para São Paulo.
A música tem celebração própria: os 30 anos d'O Passo, método brasileiro de educação musical criado por Lucas Ciavatta, ganham dois momentos no festival, do Guarnicê d'O Passo, na Rotunda, ao Reencontro, com oito ex-integrantes dos grupos. E no domingo de encerramento, às 17h, sobe ao palco do Teatro 1 "Larilá", leitura musicada de uma ópera infantil com libreto de Karen Acioly e partitura original de Arrigo Barnabé — a história de uma vendedora de mariolas e seu irmão João, com livro lançado durante a apresentação.
O digital ocupa a Sala 26 no fim de semana final: o Multimundos FIL reúne seis experiências imersivas de artes digitais, entre elas "Raízes Cósmicas", de Crisia e Plinio Hit, e "Nova Fronteira", de Dario Melo Maciel, que convidam o público a circular por universos onde imagem, corpo e percepção se tocam. No cinema, Mostra de Curtas Ibero-Americanos, em parceria com o IberCultura Viva, e mostra do cineasta Alan Minas sobre a infância, com bate-papos. A formação — marca do FIL desde sempre — vem em peso, do Colóquio Internacional de Marionetes, com representantes de Brasil, Chile, Portugal, Espanha e Argentina, ao projeto Observadores FIL, que leva estudantes de jornalismo da UFRJ a registrar o festival de dentro.
"A poética dos imaginários do FIL parte da compreensão de que nenhuma linguagem existe isoladamente: uma linguagem traz muitas outras dentro dela", define Karen Acioly. "Uma imagem pode despertar um som, um gesto pode abrir uma narrativa, uma palavra pode provocar uma memória e criar novos mundos."
SERVIÇO
FIL - FESTIVAL INTERNACIONAL DE INTECÂMBIO DE LINGUAGENS
Até 27/9
CCBB Rio (Rua Primeiro de Março, 66, Centro)
Programação completa: www.fil.art.br e www.bb.com.br/cultura
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