Existem pessoas que parecem ter nascido para fazer a diferença onde quer que estejam e em tudo o que decidam fazer. Romeu Santini pertence a essa categoria. Jornalista, advogado, professor universitário e político, foi uma das figuras mais influentes de Campinas durante a segunda metade do século 20 e os primeiros anos do século 21.
Santini, nascido em 16 de setembro de 1935 no município, iniciou a sua carreira jornalística em 1958, como repórter do jornal Diário do Povo, periódico que, durante décadas, protagonizou papel importante na formação da opinião pública campineira. Foram quatro as passagens de Romeu pela publicação, ocupando diferentes funções, chegando ao cargo de secretário e diretor de redação.
Na década de 1970 e no início dos anos 1980, esteve à frente de uma equipe que exerceu um jornalismo mais combativo, chegando a ameaçar a histórica liderança local do jornal Correio Popular. Sua experiência profissional não se limitou ao Diário do Povo.
Durante 18 anos consecutivos foi repórter da sucursal de Campinas de O Estado de S. Paulo, experiência que lhe rendeu contato permanente com a política, economia e acontecimentos de uma cidade que começava a assumir uma importância cada vez maior no cenário paulista.
No início da EPTV
Ele dirigiu, durante três anos, o extinto Jornal de Campinas e, por cerca de um ano e meio, o Jornal Hoje. No rádio, trabalhou na Rádio Cultura e Rádio Educadora e, no final dos anos 1980, participou da implantação e dirigiu o jornalismo da Rádio Central.
Também esteve no início da EPTV Campinas, da qual foi o primeiro diretor de Jornalismo.
Seu nome também ficou associado à formação de profissionais da área ao assumir o cargo de professor da Faculdade de Jornalismo e da Faculdade de Direito da PUC-Campinas, ajudando a preparar gerações de jornalistas e advogados.
Talvez seja justamente essa combinação que explique parte de sua influência. Ele conhecia a redação por dentro, conhecia o funcionamento da política, tinha formação jurídica e transitava com desenvoltura entre diferentes setores da sociedade.
Episódio, contado posteriormente pelo jornalista Luiz Ceará, ajuda a dimensionar esse prestígio. Ceará, ainda jovem, começou a escrever críticas musicais para o Diário do Povo, após ter sido apresentado a Romeu Santini. Passados alguns anos, Santini o convidou para integrar a equipe que estava sendo formada para a nova televisão afiliada à Rede Globo, a futura EPTV. Na lembrança de Ceará, Santini era "o cara mais poderoso da cidade" naquele momento.
Paixão pela política
Ainda que com uma carreira jornalística sólida, uma outra paixão começou a ganhar espaço: a política. Em 1960, aos 23 anos, Romeu foi eleito vereador pela primeira vez, voltando à Câmara nas legislaturas de 1964-1968, 1983-1988, 1993-1996, 1997-2000 e 2001-2004. Foram seis mandatos, separados por períodos em que se dedicou ao jornalismo, ao magistério e à advocacia.
Sua primeira experiência política ocorreu justamente em um dos períodos mais turbulentos da história brasileira. Ele presidia a Câmara de Campinas quando ocorreu o golpe civil-militar de 1964. A cidade vivia intensa disputa política e ideológica e a Câmara era o palco onde mais as tensões se manifestavam. Santini permaneceu na presidência naquela legislatura, em uma posição que oferecia uma enorme visibilidade e responsabilidade institucional.
Seu peso político pode ser medido pelo número de vezes em que comandou o Legislativo campineiro. Registros biográficos e discursos de homenagem apontam que Santini foi presidente da Câmara Municipal de Campinas sete vezes, um recorde associado ao seu nome. No biênio 2001-2002, já em seu último mandato como vereador, voltou a ocupar a Presidência da Casa.
Um dos exemplos concretos de sua passagem pela Casa das Leis que permanece até hoje é a criação do Banco de Alimentos de Campinas. A iniciativa se transformou em uma política de segurança alimentar de grande alcance e, segundo a própria Ceasa, atende atualmente milhares de pessoas por meio da destinação de alimentos.
De volta à redação
Há ainda um aspecto pouco comum em sua trajetória: depois de disputar a Prefeitura de Campinas em 1968 e perder, Santini não abandonou o jornalismo nem a vida pública. Retornou à própria redação do Diário do Povo como repórter setorista da Câmara Municipal, justamente a Casa onde já havia exercido o cargo de vereador e ocupado a Presidência.
Sua influência não desapareceu quando deixou o exercício diário do jornalismo. A partir de 1988, afastou-se da imprensa diária, mas continuou fazendo comentários em rádios e escrevendo ocasionalmente para jornais.
O jornalista, escritor e professor de jornalismo, Luiz Roberto Saviani Rey conviveu com ele e lembra dele com carinho. "Romeu Santini foi, em seu tempo de diretor de Redação do bom e extinto jornal Diário do Povo, um ser integralmente devotado aos fatos mais candentes da cidade, do país e do mundo, vivenciando a notícia quase em tempo integral. Discípulo dos grandes mestres do Jornalismo campineiro, os excelsos Luso Ventura e Mário Erbolato, não foi ele menos que esses vultos que deram contornos e qualidade ao Jornalismo romântico de Campinas, embora combativo e atualizado em relação às transformações do período", relata.
"Na política, foi um legislador prolífero, propositor de inúmeras leis e propostas que beneficiaram a comunidade. Mantinha um particular perfil de vereador presente em todos os setores da cidade, realizando debates, audiências públicas e comissões especiais com a finalidade de encontrar soluções às demandas dos diversos segmentos", recorda Saviani.
O adeus na Câmara
Fumante inveterado, Romeu Santini morreu em Campinas, no dia 22 de novembro de 2018, aos 83 anos, devido a problemas respiratórios. O velório foi realizado no plenário da Câmara Municipal, no mesmo espaço que havia ocupado tantas vezes e que simbolizava uma parte essencial de sua trajetória de vida. Na despedida, o então prefeito na época, Jonas Donizette, afirmou que Romeu havia deixado a marca da inteligência, do comprometimento e da seriedade, tendo contribuído para o progresso de Campinas como poucos.
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