Falar sobre política costuma gerar mais calor do que luz. Paixões, preferências e rejeições ocupam facilmente o espaço da reflexão. Mas, quando as urnas se fecham, restam números. E os números do primeiro turno disseram alguma coisa. A dificuldade é saber exatamente o quê.
Milhões de brasileiros deram seu voto a Flávio Bolsonaro, um candidato cuja projeção nacional esteve, até aqui, muito mais ligada ao sobrenome que carrega do que a uma trajetória própria na disputa pela Presidência.
Por quê? Não existe uma resposta única para milhões de votos. Há identificação ideológica, fidelidade ao bolsonarismo, rejeição ao adversário, expectativas econômicas, questões de segurança e tantas outras razões individuais.
Mas talvez exista também uma palavra que ajude a compreender parte desse resultado: cansaço. Cansaço dos mesmos protagonistas, das mesmas promessas, das mesmas bravatas e, sobretudo, da mesma figura central, com sua permanente vociferação.
Antes mesmo da eleição, já se apontava algo descrito quase literalmente como um "cansaço da voz de Lula". Não propriamente de seu timbre, mas do que aquela voz passou a representar para uma parcela do eleitorado: mais passado do que futuro.
Há quase quarenta anos Lula ocupa o centro da política brasileira. Venceu, perdeu, voltou, indicou sucessores, enfrentou adversários, deixou o poder e retornou a ele. Pouquíssimos personagens da história republicana permaneceram por tanto tempo no centro do palco.
É natural que a permanência produza também fadiga. E é exatamente aí que a alternância precisa ser compreendida sem ingenuidade.
Alternar não significa afirmar que quem chega será melhor. Significa reconhecer que a democracia também pressupõe a possibilidade efetiva de substituição. Às vezes, o voto não está dizendo apenas "quero este". Está dizendo também "não quero mais aquele".
Talvez uma parte da voz das urnas esteja aí. O curioso é observar como os próprios candidatos parecem tê-la escutado.
Flávio Bolsonaro saiu do primeiro turno embalado pelo resultado e pela forte expansão de seu campo político no Congresso. Poucos dias depois, já falava em aproveitar essa nova correlação de forças para mudar a Constituição.
É a euforia comum a quem recebe das urnas mais do que talvez esperasse receber. Campanhas produzem bravatas. Sempre produziram. Promessas são feitas, ideias são lançadas e muitas acabam esquecidas antes mesmo da posse. Do outro lado, Lula parece ter percebido outro recado.
Em meio ao desgaste do Supremo, passou a defender mudanças importantes na própria Corte. Antes do primeiro turno, propôs mandato para ministros e a criação de um colegiado, com participação da sociedade civil, no processo de escolha de seus integrantes.
Não deixa de ser uma mudança expressiva no discurso de quem exerceu diversas vezes a prerrogativa presidencial de indicar ministros para o STF. Um avança. O outro recua. É provável que a vociferação dê lugar, daqui para a frente, ao antigo "Lulinha paz e amor".
Talvez ambos estejam apenas tentando entender a voz das urnas. E há algo que ela parece dizer com bastante clareza: existe desejo de mudança.
Quem vencer estará politicamente legitimado a propô-la, inclusive no plano constitucional, desde que dentro das regras do jogo. O que a vitória não concede é autorização para presumir que toda mudança desejada pelo vencedor já recebeu, por si só, o consentimento popular.
Ouvir as urnas exige, portanto, mais do que euforia. Exige compreender até onde vai o mandato recebido. Talvez seja essa, afinal, a voz que mais precise ser ouvida.
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