Opinião

O país das maravilhas

O país das maravilhas

Construída sob a lógica do gênero literário nonsense (lógica do absurdo), a obra ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS (1865), de LEWIS CARROLL, pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson, difere das narrativas pedagógicas e moralizantes da Era Vitoriana (1837-1901). É uma crítica sarcástica da rigidez excessiva da racionalidade adulta e do falso moralismo da sociedade britânica.

O universo fantástico, insólito e onírico da obra é uma paródia satírica das convenções sociais sem sentido. A narrativa expõe também a transição da infância para a vida adulta (após 12 anos à época) com as oscilações emocionais, dificuldades com as alterações físicas e a perda da identidade infantil. Traz desconstruções profundas e, ao mesmo tempo, questões íntimas de um SER em reconfiguração para lidar com a realidade das coisas. Creio importante destacar que a "adolescência" surgiu como consequência do pós 2ª guerra.

Carroll usa diálogos absurdos (sem lógica explícita), trocadilhos, problemas de proporção e enigmas matemáticos ou lógicos como ferramentas para as questões existenciais propostas, a curiosidade infantil e a ácida crítica. A linguagem compõe o jogo. Ora é poética, ambígua, figurada, literal, emotiva... O tempo, nossa relação com ele, é confrontado: quanto tempo o tempo tem? Alice persegue a própria identidade, pois precisa amadurecer e manter sua essência e senso crítico intactos no ambiente caótico. Missão de todos nós! A menina sofre por não compreender a desordem externa e interna. Os personagens, propositalmente excêntricos e enigmáticos, confundem Alice e fazem-na pensar. Eles são seus mentores e proporcionam rica aprendizagem.

A genial narrativa permite inúmeros entendimentos. Podem ser filosóficos, jurídicos, sociológicos, matemáticos, antropológicos, psicanalíticos, linguísticos, simbólicos... todos cabíveis. Como você compreenderia a relação do Coelho Branco com o tempo? E a toca do Coelho? A toca é uma das metáforas mais férteis nas leituras psicanalíticas. Simboliza a ruptura entre a consciência do real e as profundezas do psiquismo. A queda na toca representa a saída do estado consciente (a lógica, as regras sociais e a realidade material) e o mergulho direto no Inconsciente. Nela, o tempo não é linear, as leis da física não valem e a lógica dá lugar ao processo primário autônomo.

Freud diria que a toca representa o útero materno. A queda, o desejo de retorno a ele, ou o parto, isto é, a nova fase do desenvolvimento psíquico. A metamorfose corporal, mudança constante de tamanho, espelha a oscilação da imagem corporal no crescimento, além da instabilidade da autoestima e o temor da fragmentação da Identidade: "Quem sou eu no mundo?". A toca desorganiza as defesas e as estruturas.

O livro oferta imensuráveis riquezas simbólicas. Lacan, Jung e tantos outros, cada um faria sua interpretação. Eu pergunto: Quem somos nós, brasileiros, no mundo? O que queremos ser como povo, como nação? Qual sua contribuição no processo?