Opinião

Em vez de chorar o leite derramado, que tal mudar do leite pro vinho?

Em vez de chorar o leite derramado, que tal mudar do leite pro vinho?

Todas as vezes que uma grande derrota se abate ou ameaça se abater, a esquerda se apega a um repetitivo rosário de lamentos e acusações. Nunca, nunca teve a humildade de fazer um mea culpa. Entre as acusações, a primeira é contra uma tal "mídia hegemônica", seja lá o que isso signifique nos dias de hoje. Até porque faz tempo que a mídia de mercado, se um dia foi hegemônica, nos dias de hoje de hegemônica não tem mais coisa alguma. Agora, por exemplo, diante dos resultados desastrosos do primeiro turno, muitos esquerdistas renitentes se esquecem que o cenário midiático mudou da água pro vinho. Só agora, depois que o leite, a água e o vinho começaram a derramar, a esquerda parece que acordou para a importância de apostar mais fichas nas redes sociais. O deputado André Janones (Rede-MG), por exemplo, saiu na frente por conta própria e convocou o "Exército de Lula", que vem dando bons resultados. E foi preciso que uma menina de apenas 21 anos, a deputada eleita pelo PT de Minas, Ana Elisa, a mais votada no estado, desse o grito: "A esquerda perdeu foi nas redes". E ela fala de cadeira, pois no meio digital pulou de 1,9 milhões de seguidores para mais de 5,4 milhões. E foi graças às redes digitais que obteve sua estrondosa vitória.

É nas redes que hoje a informação é impulsionada aos milhões de postagens. Elas assumiram o protagonismo midiático. Uma pesquisa da CNT/MDA, antes do primeiro turno da eleição, concluiu que quase 46% dos eleitores pretendiam se informar sobre o processo eleitoral pelas redes sociais. Apenas 34% disseram que iriam se informar pela tv. Ou seja: só um terço do eleitorado. Os que disseram que se informariam pelos sites de notícias somaram apenas 8,5%. E o rádio ficou com míseros 3,1%. Detalhe: é no rádio e na tv que é veiculada a propaganda eleitoral gratuita. Se o horário gratuito já vinha tendo audiência residual, agora mesmo desabou de vez. Pesquisas indicam que durante o horário eleitoral, mais da metade dos televisores ficam desligados. Isto sem falar na redução estrutural da audiência do rádio e da tv nas últimas décadas.

Então, que diabo de "mídia hegemônica" é esta? Chegam a ser até cansativas as acusações à Tv Globo, sistematicamente apontada como responsável por uma suposta apologia dos atos da direita. A Globo não ficou infensa à redução de audiência. Vem sofrendo queda atrás de queda. Só para dar um exemplo: hoje, o Jornal Nacional patina nos 27% de audiência (e continua em queda). O JN era o telejornal que até os anos 90 abocanhava quase a totalidade dos televisores ligados no horário. E que fique claro: a Globo e as Organizações Globo como um todo não são "santinhas". Apoiou, sim, o golpe militar de 1964. E teve de se retratar e reconhecer esse apoio como um "erro". Teve de fazer o mesmo em relação à edição tendenciosa do debate Collor x Lula. Ou seja: de santinha não tem nada, né? Embora nunca tenha se assumido de direita. E olha que atualmente alguns canais se apresentam como ostensivamente de direita. Entre eles a Jovem Pan News, a Rede Record (controlada pela Universal do bispo Macedo), e a Rede Tv, entre outras. Mas estas nunca são citadas pela esquerda como responsáveis por alguma derrota. Mas quase por uma espécie de acomodação, a culpa por tudo o que acontece de ruim para os governos de esquerda é atribuído nominalmente à... Tv Globo.

Passa da hora de mudar essa toada. Ou, simplesmente, fazer um sincero mea culpa, como bem fez a recém-eleita deputada Ana Elisa. Ela simplesmente reconheceu que a campanha do PT no primeiro turno foi equivocada por insistir em aplicar recursos nos modelos clássicos de propaganda pela mídia tradicional. Ou usando velhos métodos de carreatas, comícios etc, em detrimento do uso massivo da difusão de propostas pelas redes sociais. E ela tem razão. Exemplo: o PT gastou 8 vezes menos que o PL em mídias digitais. Enquanto a direita, há muito tempo, já tinha aprendido que o mundo mudou, e que comícios em cima de carroceria de caminhões viraram relíquias jurássicas em tempos digitais. Ficar xingando essa tal de "mídia hegemônica", à frente da tal colocam a Globo, não leva a parte alguma. Ou leva: ao descrédito e à perda de tempo e de recursos aplicados em mídias que há muito tempo foram simplesmente escanteadas pela audiência, leia-se: pelo eleitorado. O mundo mudou. E é preciso se adaptar aos novos tempos ou a vaca comodamente vai continuar caminhando rumo ao brejo. Ao brejo... da direita.