Arte e vida sempre se misturam. Tendo como base o caso real e controverso de Branca Dias (1515-1589), senhora de engenho, bem instruída, cristã-nova, perseguida pelo Santo Ofício, acusada de praticar o judaísmo na capitania de Pernambuco (séc. XVI), o dramaturgo brasileiro Dias Gomes (1922-1999) escreveu O Santo Inquérito (1966). A peça teatral é uma alegoria política, representativa de períodos dominados pelo autoritarismo. Épocas em que o sistema judiciário foi instrumentalizado com o objetivo de perseguição e destruição daqueles considerados "inimigos" ou indesejados. Hoje, essa atuação é denominada "lawfare".
A parte fictícia se passa em 1750, na Paraíba. Ambientada no contexto histórico da Inquisição, Branca Dias, jovem simples, bondosa e ingênua, salva o Padre Bernardo de afogamento, fazendo-lhe respiração boca a boca. O sacerdote agradece. O conflito surge quando o vigário descobre-se loucamente apaixonado pela moça. Atormentado de paixão e tomado por uma ira irracional, o clérigo atribui à donzela a culpa por seus desejos carnais e resolve denunciá-la ao Santo Ofício. Ela foi acusada de heresia e de praticar atos contra a moralidade, tais como, o modo de salvamento e de nadar nua no rio em noite muito quente e outros absurdos.
Durante o julgamento de Branca percebemos o quão frágil é a liberdade pessoal diante de sistemas institucionais violentos e cooptados. Neles, o réu é culpado por definição, sem qualquer possibilidade de autodefesa. Branca tenta defender-se; é vista como insolente, desafiadora e suas palavras são entendidas como afronta ou possessão demoníaca. A inocente moça está indefesa diante de inquisidores. Cada gesto de boa-fé, ingenuidade, citação bíblica feita pela jovem, tudo era manipulado e distorcido pelo Padre e pelo Visitador da Inquisição. Eles estavam investidos de uma narrativa pronta. Tudo já arquitetado.
Branca e família foram destruídos pelo sistema que não queria a verdade, queria apenas obediência; queria manipular e preservar os próprios interesses, queria demonstrar poder. O Padre, bom acusador, por não conseguir dominar seus instintos, destruiu a moça. Xingue-os do que você é, acuse-os do que você faz...
A metáfora de Gomes retrata o Estado repressor e opressor, a censura e a polícia "especial" que, ao prender, tortura e inverte a lógica dos fatos para deleite dos mandatários. Na obra, os Padres têm o poder, tentam fazê-la confessar o crime inexistente e revoltam-se. A ira é profundo ressentimento.
Gomes contrapõe a pureza da personagem, a sua boa-fé, a sua sinceridade à perversidade daqueles que deturpam seu comportamento, enxergando-o como uma ameaça à ordem e ao sistema de ideias estabelecido. Tal lá quanto cá.
A sentença proferida pelo Tribunal informa que o inquérito fora detalhado, minucioso e as acusações examinadas à luz da verdade, da justiça e do direito canônico, com todas as oportunidades de defesa e arrependimento concedidos à ré. Só que não! Foi só teatro!
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