Opinião

A era dos desaforos

A era dos desaforos

Encerrada a campanha, as palavras ditas durante a disputa continuam pesando sobre o governo e a sociedade. Acusações, promessas e ofensas criam compromissos difíceis de rever, mesmo quando o país exige decisões diferentes das defendidas nos palanques. Ao governar, parte da margem para negociar foi consumida.

A era dos desaforos se manifesta nessa agressão incorporada à vida pública, que aparece também em decisões e omissões. O desaforo pode estar num insulto, no abuso de uma autoridade ou na indiferença diante de um serviço que não atende ao cidadão. Quem é atingido suporta consequências pelas quais ninguém parece disposto a responder.

Reeleito, Lula terá de lidar com esse ambiente ao corrigir os rumos do Brasil. A revisão dos gastos, o enfrentamento de privilégios e a melhora das condições para investir dependem de decisões que podem contrariar expectativas de seus apoiadores. Precisará explicar as mudanças aos que o elegeram e reconhecer o que deve ser revisto, sem prolongar a disputa a cada decisão.

Wittgenstein escreveu, nas Investigações filosóficas, que "as palavras também são atos". Basta observar a dificuldade de negociar com alguém apresentado como inimigo ou de modificar uma política anunciada como a única aceitável. O que foi dito continua sendo cobrado pelos seguidores, reproduzido nas redes e usado pelos adversários, limitando a liberdade de quem precisa decidir.

A preocupação em preservar o grupo vai tomando o lugar da discussão sobre os resultados de uma política. Governantes e apoiadores defendem posições que talvez já não considerem adequadas, por receio de que a mudança pareça fraqueza ou deslealdade. A sociedade endurece e perde a disposição para examinar o que acontece.

Confúcio associava governar a retificar, começando pela retidão e pelo exemplo do governante. Essa reflexão pode ser estendida à gestão pública: quem governa tem a obrigação de rever escolhas diante de seus resultados, mesmo que tenha defendido outra coisa e precise explicar a mudança.

Na economia, a resistência à correção alcança toda a população. O gasto de baixa qualidade, a manutenção de privilégios e os compromissos permanentes sem financiamento sustentável podem trazer benefícios políticos imediatos, enquanto seus custos se acumulam ao longo dos anos. Também há desaforo em exigir que o cidadão pague por decisões tomadas sem consideração por sua capacidade de suportá-las.

Nem todo déficit é irresponsável, e os juros têm várias causas. Ainda assim, a deterioração fiscal persistente pode elevar o risco e encarecer o financiamento, prejudicando investimentos, empregos e a própria capacidade de proteção social. Esses efeitos também precisam entrar na discussão sobre os mais vulneráveis, que têm menos condições de se proteger da piora econômica.

A situação econômica brasileira exige um recomeço, com a revisão das escolhas que vêm prejudicando o país. Insistir nelas para preservar o discurso da campanha agravaria os problemas. Cabe ao governo apresentar medidas e à oposição avaliar seu mérito, sem tornar qualquer revisão politicamente inviável.

O Senado, os deputados federais, os governadores e o Judiciário, dentro de suas competências, também respondem por esse ambiente. A opinião pública contribui para o problema ao receber com hostilidade qualquer tentativa de entendimento. Há cobranças legítimas a fazer, mas é preciso deixar espaço para que uma decisão seja revista sem que isso provoque mais uma rodada de agressões.

Hannah Arendt viu no perdão uma possibilidade de interromper a cadeia das reações humanas. Na política, deveria ser possível reconhecer e reparar um erro, respondendo por suas consequências.

Nos Estados Unidos, a vitória democrata nas eleições para o Congresso amplia a necessidade de negociação em um país radicalizado. Na França, as manifestações mostram a distância entre o governo e parcelas da sociedade. São situações distintas, nas quais será preciso encontrar acordos para produzir resultados. O protesto é legítimo; o impasse se agrava quando já não se admite uma solução negociada.

Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, em Como as democracias morrem, alertam para a recusa da legitimidade dos adversários e a perda de limites no exercício do poder. Cuba e Venezuela mostram a dificuldade de corrigir governos que suprimem a contestação. Nas democracias, há mais espaço para a revisão, mas é preciso preservá-lo.

No Brasil, Lula, os demais poderes e a sociedade precisam aproveitar esse espaço depois da eleição. Talvez não possamos acabar com a era dos desaforos, mas podemos reduzi-los. Isso significa aceitar a discussão das escolhas anteriores e permitir os entendimentos necessários para que o país volte a avançar.