Doar sangue é um gesto simples, mas de enorme valor coletivo. Uma bolsa pode fazer a diferença entre a vida e a morte para vítimas de acidentes, pacientes submetidos a cirurgias, pessoas em tratamento contra o câncer e portadores de doenças que exigem transfusões frequentes. Por isso, toda mudança nas regras que definem quem pode doar merece ser acompanhada com atenção pela sociedade.
As novas normas do Ministério da Saúde, que entram em vigor nesta quarta-feira, ampliam algumas possibilidades de doação. Entre as mudanças está o fim da idade máxima para doadores regulares: quem já doa sangue poderá continuar depois dos 70 anos, desde que esteja saudável e seja considerado apto na avaliação clínica. A medida reconhece o envelhecimento da população e aproveita a contribuição de pessoas idosas que permanecem em boas condições de saúde.
Também foram reduzidos períodos de espera para alguns procedimentos. Depois de tatuagens, maquiagem definitiva e determinados procedimentos estéticos, por exemplo, o prazo poderá cair para sete dias quando realizados em estabelecimentos que cumpram as normas sanitárias. Em situações nas quais não seja possível avaliar adequadamente as condições do procedimento, permanece um período maior de espera.
Há ainda uma mudança que ultrapassa a questão quantitativa. O modelo de triagem vem abandonando critérios baseados simplesmente na pertença a determinados grupos e dando maior importância à avaliação individual de práticas e fatores de risco. Em 2020, o Brasil já havia eliminado a restrição que impedia temporariamente homens que mantiveram relações sexuais com outros homens de doar sangue, após decisão do Supremo Tribunal Federal.
O ponto positivo é evidente: quanto maior o número de pessoas aptas a doar, maior pode ser a capacidade de manter os estoques dos hemocentros. Mas ampliar o acesso não significa flexibilizar a segurança. O sangue doado precisa continuar submetido a uma triagem rigorosa, porque qualquer falha pode atingir diretamente pacientes vulneráveis.
Nesse aspecto, a atualização também incorpora avanços tecnológicos. O Ministério da Saúde informa que o teste NAT Plus, utilizado para identificar HIV e hepatites B e C, passa a detectar obrigatoriamente também o parasita causador da malária em todos os exames de triagem.
O desafio, portanto, é encontrar o equilíbrio entre dois objetivos que não podem ser tratados como opostos: ampliar o universo de doadores e preservar o máximo de segurança transfusional. As novas regras caminham nessa direção ao combinar critérios mais individualizados, avanços laboratoriais e avaliação clínica.
Mais importante do que simplesmente mudar números e prazos é transmitir confiança à população. A melhor regra será aquela capaz de aumentar a solidariedade sem reduzir a proteção de quem doa e, principalmente, de quem depende do sangue para sobreviver.
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