EDITORIAL

Sanchéz joga seu governo aos leões na Espanha

Sanchéz joga seu governo aos leões na Espanha

Os protestos que tomaram as ruas da Espanha para denunciar a crise habitacional expõem uma ferida que ultrapassa o preço dos aluguéis e a dificuldade de acesso à casa própria. O problema tornou-se político e, ao pressionar o governo de Pedro Sánchez, ajuda a explicar a decisão de antecipar as eleições. Mais do que uma disputa eleitoral, o país se encaminha para um teste sobre a capacidade da esquerda de responder às angústias concretas de uma sociedade cada vez mais impaciente.

A habitação transformou-se em um dos principais fatores de insatisfação em várias cidades espanholas. Jovens enfrentam dificuldades para deixar a casa dos pais, trabalhadores comprometem parcela crescente da renda com aluguel e famílias de menor poder aquisitivo são empurradas para regiões cada vez mais distantes dos grandes centros. Quando uma questão essencial à vida cotidiana chega a esse nível, qualquer governo passa a pagar um preço político elevado pela sensação de impotência.

Sánchez chega às urnas, portanto, pressionado por uma combinação perigosa: desgaste político, dificuldades para manter uma base parlamentar estável e a percepção de que o governo não conseguiu apresentar respostas suficientemente eficazes para problemas que afetam milhões de espanhóis. A antecipação eleitoral pode ser uma tentativa de recuperar iniciativa, mas também pode produzir o efeito contrário e transformar o pleito em um julgamento sobre os anos de governo socialista.

O risco maior para a esquerda espanhola é que o descontentamento seja capitalizado pela direita tradicional e, sobretudo, pela extrema-direita. O crescimento de forças nacionalistas e conservadoras em diferentes países europeus demonstra que a insatisfação econômica e social, quando não encontra respostas convincentes no campo progressista, costuma abrir espaço para discursos que prometem soluções rápidas, endurecimento das políticas migratórias e ruptura com o establishment.

A Espanha, assim, tornou-se mais uma frente da disputa que atravessa a Europa. O resultado eleitoral poderá fortalecer ou conter uma tendência que já alterou o equilíbrio político do continente. Mas seria um erro atribuir exclusivamente à extrema-direita a responsabilidade pelo avanço desse fenômeno. A esquerda também precisa reconhecer suas próprias limitações.

A crise habitacional não será resolvida com slogans, assim como a insegurança econômica não desaparece com discursos eleitorais. Se a esquerda quiser continuar governando, terá de demonstrar que consegue transformar políticas públicas em resultados perceptíveis na vida das pessoas. Caso contrário, a eleição antecipada poderá representar não apenas o fim de um ciclo para Sánchez, mas mais um passo na mudança do mapa político europeu.