SEGUNDA NO 2

SEGUNDA NO 2: O credo cantado por Fabiana Cozza

SEGUNDA NO 2: O credo cantado por Fabiana Cozza
Cleber Silveira e Fabiana Cozza em show, no Teatro Rival, inspirado na obra da poeta Orides Fontela Crédito: Wallace Mendonça/Divulgação

Classificar Fabiana Cozza de eclética seria uma forma preguiçosa de classificar a cantora que desde seu primeiro CD, "O samba é meu dom", de 2004, mantém-se fiel a um trabalho original e que gira em torno de sua própria personalidade artística.

Por mais diferenciado que seja seu repertório, como no caso do apresentado em seu show mais recente, "Nunca crer no que não canta", Fabiana, ao longo de sua carreira, teceu uma espécie de rede que estabelece ligações entre seus diferentes álbuns.

Longe de querer domar as canções, Fabiana deixa claro que, ao interpretá-las, estabelece uma coautoria, desenha novos parâmetros para o que havia sido escrito. Não impõe limites, apresenta novos desafios.

Assim, sucessos do universo pop, popularizados por Marina Silva, Lulu Santos, Angela Roro, Edith Piaf e Tim Maia não representam qualquer tipo de choque ou contradição com a trajetória de uma cantora que tem no samba a grande referência do seu trabalho.

Ela e o acordeonista Cleber Silveira fazem uma espécie de roda de altinha, aquele esporte praticado nas praias. E tome de levantadas, cabeçadas, toques de peito — no palco, os dois não deixam a bola cair, apesar dos muitos efeitos nela aplicados.

Foi também com base nesse eixo em torno do qual constrói sua carreira que, em 2017, Fabiana lançou "Ay, amor!", álbum em que interpreta canções popularizadas pelo cubano Bola de Nieve (1911-1971), coletânea que, assim como os CDs em que Jamelão canta Lupicínio Rodrigues, deveria requerer licença médico-psicológica para ser ouvida.

No caso de Fabiana, o samba é ponto de partida e companheiro inseparável de viagem, mas não representa o único destino possível. É como se, de vez em quando, ela decidisse dar um passeio, mandasse um vou ali e volto já.

Idas que nem de longe representam uma espécie de abandono, mesmo que temporário. O samba está sempre por perto, o GPS da cantora nunca sai do ar, seu norte é bem definido.

Dona de uma grande extensão de voz, Fabiana não teme o risco dos agudos e, contralto, passeia pelo graves como — para usar a expressão de Neném Prancha sobre Didi — quem chupa laranja. Melhor: sua técnica e sua afinação apuradíssimas, fazem parecer ser fácil o resultado de muito trabalho.

Inspirado na obra da poeta Orides Fontela (1940-1998), homenageada na última Flip, "Nunca crer no que não canta" é um espetáculo que explora a dramaticidade de Fabiana, elemento ressaltado pelo acordeon de Silveira, que multiplica sons, projeta percussões e chega a remeter ao bandoneon.

Este caráter dramático é, porém, contido, em nenhum momento ameaça suplantar o canto. (No palco, Fabiana diz que, a conselho de amigo, amenizou o repertório, nele introduziu canções mais leves.)

Os poemas de Orides que ela recita ao longo do show servem de contraponto e complemento às canções, ajudam a frisar aspectos mais delicados dos sucessos que, no palco, ganham significados mais eloquentes. Cria-se assim uma tensão, um puxa-estica que evolui de maneira firme e delicada pelo palco e transborda pela plateia, um credo que se canta.