Fernando Molica

A vista do pedido ficou cansada

O início da análise do caso de Moraes permitirá a reabertura da avaliação sobre André Mendonça e reforçará a necessidade de medidas semelhantes em relação a, pelo menos, dois outros ministros do STF: Dias Toffoli e Nunes Marques.

A vista do pedido ficou cansada
Moraes: confirmação de voo nas asas de Vorcaro exige investigação imediata Crédito: Valter Campanato/Agência Brasil

A imagem que prova o voo de Alexandre de Moraes em jato de Daniel Vorcaro ressalta que não dá mais para o Supremo Tribunal Federal atrasar o início de investigação sobre o ministro: mais do que cansada, a vista pedida por Flávio Dino foi turvada pelos fatos.

O início da análise do caso de Moraes permitirá a reabertura da avaliação sobre André Mendonça e reforçará a necessidade de medidas semelhantes em relação a, pelo menos, dois outros ministros do STF: Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques.

Não é razoável esperar, não pode haver sombras sobre o STF. Para que não reste qualquer dúvida sobre a lisura do que será apurado, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, deve manter distâncias dos casos, nem que precise pedir licença do cargo. Não há, pelo menos até agora, algo que configure crime por parte do PGR, mas seu deslumbramento com o charuto fornecido por Vorcaro vale mais do que qualquer baforada.

Antes do início da sessão do STF que trataria do seu caso, Moraes, em documento, sustentou a moralidade do contrato entre o Master e o escritório de sua mulher, Viviane Barci de Moraes, e afirmou que sequer recebera as mensagens a ele dirigidas pelo então dono do Master. O celular e os computadores de sua excelência precisam ser examinados.

Mendonça, por sua vez, precisa explicar a razão de ter esperado cinco meses para, enfim, a pouco mais de um mês da eleição, determinar à PF a feitura de um apanhado de suspeitas, que, como ele sabia, envolveriam Moraes. É necessário também que ele justifique o porquê de ter mantido o sigilo sobre a investigação sobre Flávio Bolsonaro e ter alardeado os indícios sobre o colega — e precisa esclarecer a razão de não ter investido nos casos Toffoli e Nunes Marques.

Nos últimos dias, surgiu também a evidência de que um empresário ligado a Vorcaro repassou R$ 5,2 milhões para colaborar no percurso de instituto Iter, fundado por Mendonça. A entidade também fechou contratos com a prefeitura de São Paulo depois que o ministro votou de maneira favorável em processo que atendia interesses de Vorcaro na administração municipal. Outros acordos com entes públicos precisam ser apurados.

A PGR e STF têm que acabar com as férias de Toffoli em relação à sociedade que manteve, de forma oculta, no Tayayá — cotas do resorte foram vendidas para fundo ligado a Vorcaro. Não pode ficar sem esclarecimento a ascensão profissional do advogado Kevin de Carvalho Marques, filho de Nunes Marques, que, aos 26 anos, coleciona clientes importantes, entre eles, um que recebeu recursos do conglomerado Master.

A revista piauí publicou reportagem que frisa coincidência de datas a pagamento supostamente feito a Kevin e uma decisão de seu pai em ação que atendia — é preciso repetir a expressão — a interesse de empresa ligada a Vorcaro. O STF pode até ignorar um outro tipo de favor que teria sido oferecido a sua excelência; como não há prerrogativa de foro em julgamentos domésticos, ele que se vire para negá-lo no tribunal adequado. Mas o resto precisa ser explicado.