Fernando Molica

O folhetim de Lula com o Centrão

Assim como fez outras três vezes, Lula mandou dizer que vai exigir fidelidade para o amor em forma de cargos e privilégios. Mas ele sabe que não será atendido.

O folhetim de Lula com o Centrão
Mais uma vez sem maioria no Congresso, Lula precisa seduzir o Centrão Crédito: reprodução

Reeleito, Lula (PT) começou a ensaiar o mais previsível dos rituais que marcam o período que antecede à posse de cada presidente: o de fazer carinhos no Centrão.

Eleito em 2018 ao som do "Se gritar pega Centrão/ Não fica um, mermão", Jair Bolsonaro, no início de seu mandato, tentou fugir da sina ao se articular com as chamadas bancadas temáticas da sigla BBB (boi, bala e bíblia), mas, isolado, teve que se render ao grupo que manda no Congresso.

Estender o tapete para o Centrão é inevitável. Apesar do crescimento do PL, que elegeu 121 deputados (131, contados os dez do Novo), o bloco de direita e de extrema direita terá cerca de 25% da Câmara, praticamente o mesmo percentual dos partidos de esquerda.

Já os partidos que não têm qualquer tipo de amarra ideológica voltaram a garantir nas urnas quase metade do plenário para seus deputados. União Brasil, PP, Republicanos, PSD, MDB, Podemos e outras siglas que dançam pra lá ou pra cá continuarão a mandar no pedaço.

Assim como fez outras três vezes, Lula mandou dizer que vai exigir fidelidade para o amor em forma de cargos e privilégios. Mas ele sabe que não será atendido: a precariedade do sistema político brasileiro permite com que, nessas agremiações nem-nem, cada deputado seja seu próprio partido, vote de acordo apenas com seus interesses.

O pior é que o crescimento de emendas de execução obrigatória diminuiu o poder de sedução dos presidentes. Parlamentares não se entregam mais por pedra falsa, sonho de valsa ou corte de cetim.

Vingou o exemplo de Severino Cavalcanti, o presidente da Câmara que, em troca de apoio ao governo, queria mandar num naco da Petrobras, mas só aceitava a prenda caso pudesse indicar diretor da área responsável por furar poço e achar petróleo: nada de coisa à toa, uma noitada boa, um cinema, um botequim.

O mapa que se desenha para 2030 complica a situação do governo. A segunda derrota consecutiva do bolsonarismo, a fuga de Flávio para os Estados Unidos e o ótimo desempenho de Tarcísio de Freitas em São Paulo apontam para a possibilidade de a direita não extremista entrar de maneira pesada na disputa pelo Planalto, o que embala ainda mais os sonhos do Centrão, grupo que detesta radicalismos.

Lula sabe que precisa ceder para conseguir apoio na Câmara e no Senado. Embalado pela virada histórica no segundo turno, pela inédita mobilização popular e favorecido pela trapalhadas do adversário que derrotou, o presidente chega forte ao quarto mandato, ainda que minado por setores do tal do mercado que apostaram tudo em seu fracasso eleitoral.

Ele sabe que o caminho que leva ao Centrão é cheio de riscos, como os materializados nos Mensalão e no Petrolão, escândalos que envolveram diversos partidos mas que ficaram marcados feito tatuagem no PT.

Vai ter que dançar conforme a música e, ao mesmo tempo, preservar os pés de pisadas dos aliados de ocasião, que usam espinhos afiados e cheios de veneno na sola de suas chuteiras.