O corredor de um supermercado prestes a fechar pode ser um dos cenários mais solitários da vida urbana: luz branca, prateleiras em reposição, o eco do carrinho no piso encerado. É nesse vazio de fim de expediente que duas mulheres se cruzam em "Cinco Minutos Sem Respirar", a primeira encenação brasileira do texto do dramaturgo venezuelano Gustavo Ott — peça escrita originalmente em 2013 e já vertida para cerca de 15 idiomas. Em cartaz até domingo (27) no Mezanino do Sesc Copacabana, a montagem tem direção de Danielle Martins de Farias e atuações de Carla Guidacci e Vanessa Pascale.
O encontro das duas personagens — de trajetórias distintas, que não se conhecem, começa na lógica do realismo para gradualmente abandoná-la. O tempo se fragmenta, a memória ganha presença física, e a noite que deveria terminar na fila do caixa se desdobra em cinco versões possíveis, cada uma revelando memórias, medos, desejos e contradições diferentes.
A estrutura de labirinto propõe ao espectador o deslocamento da própria realidade, como se perguntasse o que restaria de uma história se repetida com pequenas inflexões. mas o que fica é o retrato íntimo de duas mulheres que não se submetem aos rótulos que a sociedade lhes tenta impor.
Ao se tratar temas como a violência de gênero, cair no maniqueísmo é um risco constante: vítima de um lado, algoz do outro e a moral da história. Danielle explica que a montagem evita esse caminho tanto que uma das personagens sofre violência doméstica, mas também participa, por meio do próprio trabalho, de uma estrutura de violência econômica. A outra naturalizou o gesto de cuidar dos demais e assumir responsabilidades alheias até que isso se tornasse o eixo de sua vida.
"Aqui as personagens não são simplesmente boas ou más, vítimas ou algozes. Essa contradição nos interessa muito. Ela nos faz pensar sobre como estamos inseridos em estruturas de violência que muitas vezes não percebemos ou naturalizamos", afirma a diretora.
O gesto mais ambicioso do texto de Ott, inclusive, é aproximar dois universos aparentemente apartados — o banco e o supermercado — para mostrar como dinheiro, trabalho, dívida e consumo atravessam as relações interpessoais e o afeto. A violência deixa de ser assunto do âmbito privado, de marido e esposa atrás de uma porta, e passa a ser lida também como produto de estruturas sociais que geram aprisionamento.
Não por acaso, a pesquisa da Notória Companhia sobre opressões cotidianas — que já havia produzido "Dois Amores e Um Bicho", montagem dedicada à homofobia — encontra aqui seu capítulo mais incisivo sobre os mecanismos discretos com que o poder se infiltra na vida de quem menos tem margem para resistir à sua força.
Para aproximar o texto do venezuelano do contexto brasileiro, a montagem incorporou ao processo novos materiais, como depoimentos reais e poemas de mulheres brasileiras. O trabalho colaborativo articula corpo, espaço, palavra, música e imagem em torno das subjetividades femininas. Há uma aposta clara na experiência estética como forma de pensamento — o público não recebe conclusão embrulhada, mas cinco finais possíveis para uma mesma noite, e a incômoda sensação de que qualquer um deles poderia ser o seu.
"Os números da violência contra a mulher mostram a urgência do tema, mas nosso interesse não é ilustrar estatísticas. O teatro permite acompanhar essas personagens de maneira íntima e perceber como as relações abusivas atravessam o cotidiano. Ao mesmo tempo, queremos olhar para as estruturas econômicas e sociais que também produzem formas de aprisionamento", completa Danielle.
SERVIÇO
CINCO MINUTOS SEM RESPIRAR
Mezanino do Sesc Copacabana (Rua Domingos Ferreira, 160)
Até 27/9, quinta e sexta (20h30) | sábado e domingo (19h)
Ingressos: R$ 40, R$ 36 (conveniados); R$ 31 (conveniados empresário); R$ 28 (sócio Sesc); R$ 20 (meia); e grátis (PCG)
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