A relação entre Brasil e Estados Unidos entrou de vez no debate eleitoral às vésperas do discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Assembleia-Geral das Nações Unidas, em Nova York. A discussão ganhou força após a divulgação de um relatório da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) que aponta risco de influência ou interferência americana nas eleições brasileiras de 2026.
O documento reservado foi encaminhado no fim de agosto à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Ministério da Justiça. A avaliação da inteligência brasileira aponta uma "tendência de escalada de pressão sobre o Brasil" e relaciona o cenário à estratégia do segundo governo de Donald Trump para ampliar a influência dos Estados Unidos na América Latina.
O alerta, porém, não significa que uma interferência eleitoral tenha sido comprovada. Até agora, integrantes do TSE afirmam não terem identificado sinais concretos de atuação estrangeira capaz de interferir diretamente no processo eleitoral. A Abin participa das estruturas de acompanhamento e segurança das eleições e trata a influência externa como um dos riscos que precisam ser monitorados, ao lado da desinformação, do uso de inteligência artificial, do crime organizado e do extremismo.
A divulgação do relatório ampliou uma discussão que já vinha sendo explorada na campanha presidencial. Levantamento da Palver sobre mensagens relacionadas a Lula e aos Estados Unidos entre 13 e 20 de setembro identificou que pouco mais de 40% do conteúdo analisado tratava de soberania e interferência. No sábado (19), quando o relatório veio a público, o volume de mensagens sobre o tema cresceu 140% em relação à média da semana.
O assunto também desloca parte das atenções que estavam concentradas na crise interna do Supremo Tribunal Federal. Nas últimas semanas, os embates envolvendo ministros da Corte, especialmente após os episódios relacionados às investigações sobre Daniel Vorcaro, passaram a ocupar espaço relevante nas estratégias eleitorais. Flávio Bolsonaro tem explorado o desgaste do STF e as críticas a Alexandre de Moraes, enquanto Lula reforça o discurso de defesa das instituições e da soberania nacional.
A relação com Washington tornou-se um dos pontos de confronto entre as campanhas. Lula vem associando soberania à defesa dos recursos naturais, da economia e da autonomia brasileira nas relações internacionais. Em ato de campanha em Ceilândia, na última quarta-feira (16), o presidente afirmou que pretendia dizer a Trump para não interferir nas eleições brasileiras caso tivesse oportunidade de conversar com o republicano durante a passagem por Nova York.
Do outro lado, integrantes da família Bolsonaro mantêm interlocução política nos Estados Unidos. Eduardo Bolsonaro e o empresário Paulo Figueiredo defenderam recentemente novas sanções americanas contra ministros do STF. A campanha de Flávio Bolsonaro, entretanto, tem buscado se distanciar das iniciativas do irmão, sustentando que Eduardo age de forma independente e não integra formalmente sua estrutura eleitoral.
O relatório da Abin acrescentou uma dimensão institucional a esse embate. A agência cita sanções adotadas pelos Estados Unidos contra brasileiros e empresas e avalia que determinadas medidas podem produzir efeitos sobre relações financeiras, acesso ao dólar, reputação empresarial e operações internacionais. O documento também menciona declarações do secretário de Estado americano, Marco Rubio, e a política de Washington para reduzir a presença de potências rivais, principalmente a China, em áreas estratégicas da América Latina.
A discussão chega à ONU em um momento particularmente sensível. Lula desembarcou em Nova York neste domingo (20) e fará na terça-feira (22) o tradicional discurso de abertura do debate de chefes de Estado da Assembleia-Geral, imediatamente antes de Trump. Não há reunião bilateral formal anunciada entre os dois presidentes, embora um encontro informal nos corredores da organização não esteja descartado.
A expectativa é que Lula defenda o multilateralismo, a soberania nacional e o princípio da não intervenção, evitando mencionar diretamente Trump. O presidente também deve abordar o combate ao crime organizado, outro assunto que passou a integrar o embate entre Brasília e Washington e ganhou peso na eleição brasileira.
A pauta internacional, portanto, passou a se misturar diretamente à disputa doméstica a menos de duas semanas do primeiro turno, marcado para 4 de outubro. Enquanto Lula tenta vincular a relação com os Estados Unidos à defesa da soberania, adversários procuram trazer para o debate temas como segurança pública, atuação do STF e relações do governo brasileiro com outros países.
No ambiente digital, a disputa já está estabelecida. De acordo com os dados da Palver, 62,5% das menções analisadas na mensageria sobre Lula e Estados Unidos tinham conteúdo favorável ao governo e 37,5%, negativo. Entre as mensagens críticas ao presidente, segurança pública, crime organizado e pedidos de sanções contra integrantes do STF aparecem entre os principais eixos.
O impacto eleitoral dessa discussão, entretanto, permanece em aberto. O crescimento das mensagens sobre soberania mostra que o tema ganhou espaço na reta final da campanha, mas pesquisas citadas no próprio levantamento da Palver indicam que questões diretamente ligadas ao cotidiano, como custo de vida e inflação, continuam entre as principais preocupações apontadas pelos entrevistados.
A passagem de Lula por Nova York coloca agora o debate internacional sob ainda mais exposição. O discurso na ONU poderá reforçar a estratégia de transformar soberania em uma pauta eleitoral, enquanto a oposição tenta manter no centro da disputa a crise do STF, a segurança pública e as críticas ao governo.
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