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Mocidade vira o mapa de cabeça para baixo

A América Latina encontra sua vocação no enredo que entrelaça pensadores como Eduardo Galeano, Ailton Krenak, Lélia Gonzalez e Milton Santos

Mocidade vira o mapa de cabeça para baixo
Primeira escola a desfilar na segunda-feira, a Mocidade recorre à latinidade para voltar ao topo do Grupo Especial Crédito: Alexandre Macieira/Riotur

Com Jack Vasconcelos de volta ao comando e um samba assinado por seis mãos, a verde e branco de Padre Miguel abre a segunda-feira com "Latinamente Independente" Em 1943, o artista uruguaio Joaquín Torres García pegou o mapa da América do Sul, virou-o de cabeça para baixo e deu o recado: o norte, para nós, é o Sul. Não pediu licença a nenhum cartógrafo. Oitenta e quatro anos depois, a Mocidade Independente de Padre Miguel leva o desenho - e a filosofia- à Sapucaí e ainda ganha o privilégio de ser a primeira a mostrá-lo: abre a noite de segunda-feira, 8 de fevereiro.

O enredo se chama "Latinamente Independente - Nosso Norte é o Sul em Remanifesto" e foi apresentado em maio de 2026. A sinopse é de Jack Vasconcelos, e a bibliografia no fim do texto já conta metade da história: Eduardo Galeano, Ailton Krenak, Lélia Gonzalez e Milton Santos, ao lado de discos e canções. Nas palavras do carnavalesco, o desfile é "um manifesto que propõe uma revolução de visão carnavalizada na qual a América Latina toma, ou retoma, o poder".

No caminho cabem a ironia com a cultura colonizante, o ouro saqueado, os museus cheios do que não lhes pertence, os monumentos a quem não merece e o saber indígena e africano como bússola. Entra até o "quilombo tecnológico", e a alegria aparece como forma de resistência. A sinopse fecha com um aviso que serve de lema para a arquibancada: "Perdoe, mas não esqueça.".

Tem muito da disrupção tão comum de um ídolo de Padre Miguel que já partiu: Fernando Pinto. Jack é conhecido da casa. Foi dele o desfile em homenagem a Elza Soares, em 2020, que rendeu à Mocidade o terceiro lugar. Em fevereiro de 2026, o Tuiuti anunciou a saída do carnavalesco, e a Mocidade comemorou o retorno com uma frase sem cerimônia: "Jack Vasconcelos é meu novo carnavalesco para 2027!!"

Houve troca de calçada sem estardalhaço: Renato Lage, dispensado pela escola de Padre Miguel, foi cuidar do Tuiuti, e Jack fez o caminho inverso. A escola precisava mesmo de um giro. Nos últimos cinco carnavais foi oitava, 11ª, 10ª, 11ª e 11ª, e por três vezes terminou a um degrau do rebaixamento. Em 2025, escapou da queda por uma posição. Em 2026, com "Rita Lee, a Padroeira da Liberdade", somou 267,4 pontos.

É pouco para uma escola fundada em 10 de novembro de 1955, que tem seis títulos do Grupo Especial (1979, 1985, 1990, 1991, 1996 e 2017, este dividido com a Portela), uma bateria que se apresenta como "Não Existe Mais Quente" e um passado futurista que pôs a Avenida de queixo caído nas décadas de 1980 e 1990. O samba também veio com clima de manifesto. A escolha aconteceu na madrugada de 6 de setembro, numa final com quatro sambas e estimativa de mais de dez mil pessoas na quadra. Ganhou a parceria de PC Feital, com Alex Saraiça, Denilson do Rozário, André Russo, Carlinho da Chácara e Fábio Bueno. Letrista do primeiro time da MPB, Feital resumiu a vitória em poucas palavras: "Esse samba é um manifesto."

Fora da pista, a escola também mexeu nas peças. A comissão de frente teve quase 400 candidatos em testes conduzidos pelo coreógrafo Marcelo Misailidis. E a rainha de bateria é Gaby Mendes, de 23 anos, ex-passista da casa. E dentro da pista também: Evandro Malandro chega da Grande Rio para ser a voz da escola e o mestre-sala Diogo Jesus passa a ter a companhia de Rafaela Theodoro, ex-Imperatriz. Quem abre a noite na Sapucaí costuma ditar o rumo. Desta vez, o rumo é o Sul, tudo conduzido por um dos orgulhos da Zona Oeste.


FICHA TÉCNICA

FICHA TÉCNICA
Mocidade Independente de Padre Miguel Crédito: Divulgação

Escola:G.R.E.S. Mocidade Independente de Padre Miguel

Fundação: 10 de novembro de 1955

Cores: verde e branco

Presidente: Gustavo de Andrade

Enredo: "Latinamente Independente - Nosso Norte é o Sul em Remanifesto"

Desfile: segunda-feira, 8 de fevereiro de 2027 (1ª escola)

Carnavalesco: Jack Vasconcelos

Diretor artístico: George Louzada

Intérprete: Evandro Malandro

Mestre-sala e porta-bandeira: Diogo Jesus e Rafaela Theodoro

Bateria: Mestre Dudu

Rainha de bateria: Gaby Mendes

Comissão de frente: Marcelo Misailidis

Títulos no Grupo Especial: 1979, 1985, 1990, 1991, 1996 e 2017 (dividido com a Portela)

SAMBA-ENREDO

Compositores: PC Feital (Paulo César Feital), Alex Saraiça, Denilson do Rozário, André Russo, Carlinho da Chácara e Fábio Bueno

Desperta pioneira

No verde da bandeira

Odé Komorodé me empresta o seu ofá

É hora!

Do hemisfério oprimido

Ter o mapa invertido pra Jurupari lutar

Choramos

Por tanto sangue derramado

Entre a fome do mercado e a fúria d'ambição

Pois eles são capatazes da alegria

Opressores da harmonia, carcereiros da ilusão

Latino em tua alma matarás

Os soberanos de alcatraz

Pero sin, perder lá ternura jamás!

Eu sonhei com Obatalá e Tupã lá no Orum

Caetés na Casa Branca, a Colômbia e o Peru

Na soberania plena todos juntos somos um

Pindorama era o Quilombo dos saberes de Ogum

Os sabores do amor tem punhados de alegria

Preparados no calor da rebeldia

Grito ao Norte, não repita o amargor de tanta ausência

No Brasil, meus companheiros são heróis da resistência

Atahualpa se uniu a Tupiara

Reagiram fortemente, não assalte as terras raras

Sou de Tupã com ascendente em Pachamama

No suor que se derrama e na dor que se escancara

Independente, eu sou desobediente

Tenho molho e sangue quente e não faço concessão

Tome tenência e sossegue logo o facho

Que meu filho vire o mundo de cabeça para baixo

Toca o agueré, pra fazer revolução

Toca o agueré e respeita essa nação

O meu norte sempre foi, nossa pátria mãe gentil

Mocidade Independente do Brasil