28° Festival do Rio

Um mapa para desbravar minas

Um roteiro de autoralidades para o fim de semana de despedida da maratona cinéfila carioca

Um mapa para desbravar minas
Caetano Veloso arranha um cult dos Beatles para as cordas de Niño Josele em 'Bajañí' Crédito: Divulgação


Quem vem dar o ponto final na 28ª edição do Festival do Rio é o efervescente "Club Kid", de Jordan Firstman, com passaporte dos EUA e aprovação global. Imagine um promotor de festas queer, daquelas mais bombadas, com "almôndegas" humanas para todos os gostos, regadas a pó, descobrir que, de sua única transa com uma mulher, uma "rapidinha" num corredor de boate, nasceu um menino - e o guri é um fofo. A mãe suicidou-se. Caberá a ele, que leva uma rotina de excessos, cuidar do menino nesta trama que virou frisson no Festival de Cannes e repetiu a dose em San Sebastián. Jordan escreve, produz, dirige (numa estreia impecável) e atua bem pacas. Passa no Odeon, neste sábado, às 21h45, e tem repeteco no domingo, às 14h45, no Estação Gávea, e às 18h45, no Cinesystem Belas Artes 6. Tem outras coisas imperdíveis até o filmaço de Firstman. O Correio da Manhã dá as dicas:

COVARDE (Coward), de Lukas Dhont (Bélgica): O diretor de "Close" (2022) amplia sua fama com este romance queer com base no amor entre dois soldados da I Guerra, que rendeu a láurea de Melhor Interpretação para Emmanuel Macchia e Valentin Campagne na Croisette. Eles vivem combatentes que, em meio a explosões nas trincheiras da Europa, engajam-se em encenações teatrais para elevar a alegria das tropas e acabam por se apaixonar. Onde e quando: sexta, 14h15, no Cinesystem Belas Artes 6.

JOSEPHINE: FRAGMENTOS DE UM CRIME (Josephine), de Beth de Araújo (EUA): Suspense do ano, este thriller venceu Sundance e disputou o Urso de Ouro. Nele, uma guria de oito anos, vivida pela impressionante Mason Reeves, sai para uma corrida matinal com o pai, Damien (Tatum), no Golden Gate Park, em São Francisco, quando testemunha uma violência sexual. O episódio destrói sua sensação de segurança. Obrigada posteriormente a lidar com as consequências do que viu, a menina passa a enxergar a figura do agressor por todos os lados e reage ao medo com violência. Gemma Chan interpreta a mãe, completando uma família que tenta proteger a criança. Quando e onde: sexta, às 19h15, no Odeon; no sábado, dia 10, às 21h15, no Reserva Cultural Niterói 1; e no domingo, dia 11, às 21h45, no Est. Claro Gávea 5.

QUEM MATOU NARCISO? ("Narciso"), de Marcelo Martinessi (Paraguai, Brasil): Vencedor do Bonito Cine Sur 2026 e ganhador do Prêmio da Crítica na Berlinale. Sua narrativa começa com uma geral da vida paraguaia em 1959, quando nuestro hermano vivia sob a ditadura de Alfredo Stroessner, o cantor Narciso transforma o rádio em espaço de liberdade ao levar o rock'n'roll de Buenos Aires ao país. Depois de conquistar admiradores e desafiar os costumes, ele é encontrado morto misteriosamente. Quando e onde: Sexta-feira, às 21h30, no Reserva Cultural Niterói 1, e no sábado, às 18h30, no Cinesystem Belas Artes Botafogo 6, com debate com entes de sua equipe após a sessão.

SEREMOS FELIZES ("On sera heureux"), de Léa Pool (Canadá e Luxemburgo): Saad, refugiado marroquino vivendo no Canadá, vê sua vida virar uma corrida contra o tempo quando seu companheiro iraniano, Reza, enfrenta a ameaça de deportação para um país onde sua vida corre perigo. Para salvá-lo, Saad arrisca tudo diante de um sistema de imigração implacável.

Quando e onde: sexta-feira, às 18h15, no Cine Santa Teresa.

BAJAÑÍ, de Fernando Trueba (Espanha): Guiado pela guitarra flamenca de Niño Josele, o diretor de "Quero Dizer Que Te Amo" (1995) percorre a Península Ibérica, os Estados Unidos e o Brasil em uma viagem musical que aproxima flamenco, jazz e música brasileira. Caetano Veloso, Marisa Monte, Rubén Blades, Ron Carter e Kenny Barron estão entre os artistas que participam do percurso. Quando e onde: sábado, às 21h30, no Estação Claro Gávea 4.

SHEEP IN THE BOX, de Hirokazu Kore-eda (Japão): Em um futuro próximo, um casal devastado pela morte do filho aceita receber em casa um androide construído à imagem e semelhança da criança. Enquanto a mãe tenta reconstruir a rotina familiar, o pai resiste à máquina, que passa a desenvolver seus próprios movimentos de autonomia. A produção valeu ao realizador de "Ninguém Pode Saber" (2004) uma indicação à Palma de Ouro em Cannes. Quando e onde: sábado, às 21h30, no Cinesystem Belas Artes Botafogo 6.

CARTAS AMARELAS ("Gelbe Briefe" / "Yellow Letters"), de Ilker Çatak (Alemanha e Turquia): O ganhador do Urso de Ouro de 2026 está entre nós, e é arrebatador. Em Ancara, a atriz Derya e o dramaturgo e professor Aziz formam um respeitado casal de artistas. Um gesto de desobediência durante uma estreia teatral os coloca sob investigação do Estado e os obriga a deixar trabalho, casa e cidade, enquanto a pressão política ameaça também a família e o casamento. Quando e onde: sábado, às 19h, no Kinoplex São Luiz 2.

O TREM FLUVIAL ("El tren fluvial"), de Lorenzo Ferro e Lucas A. Vignale (Argentina): Temos aqui um passeio por um canteiro da América do Sul onde o mágico e o realismo convivem. Milo Barria, de nove anos, está a crescer sob a pressão de se tornar um grande dançarino de malambo, o sapateado gaúcho. Ele sonha em assumir o controle da sua vida e escapar das suas responsabilidades de lavar pratos, cozinhar e praticar sua dança à noite. Milo quer outra vida. Ele fantasia viajar pela malha ferroviária e explorar a cidade de Buenos Aires, que já viu tantas vezes em filmes e na televisão. No entanto, para se libertar da rotina do campo, ele deve ousar embarcar numa nova jornada... que será árdua. Quando e onde: sábado, no Estação Claro Gávea 3, às 1615.

ELEFANTES NA NÉVOA ("Tiniharu" / "Elephants in the Fog"), de Abinash Bikram Shah (Nepal, Alemanha, Brasil, França e Noruega): Em uma aldeia nepalesa cercada por uma floresta habitada por elefantes, Pirati lidera uma comunidade Kinnar formada por mulheres trans. Quando uma de suas "filhas" desaparece, ela inicia uma busca que coloca em choque seu desejo de liberdade, seus afetos e a violência social que marginaliza sua comunidade. Seus técnicos de som (brasileiros) foram laureados com um prêmio especial na Croisette. Quando e onde: sábado, às 19h30, no Cinesystem Belas Artes Botafogo 3.

DEPOIS DE ELENA ("After Elena"), de Shawn Garry (Chile, Colômbia e Itália): Após a morte da mulher que mantinha a família unida, Roberto, um viúvo de 70 anos, volta a viver com os três filhos adultos. O reencontro faz emergirem fracassos, segredos, culpas e afetos reprimidos, obrigando a família a reaprender a conviver. Quando e onde: domingo, às 21h30, no Cinesystem Belas Artes.

AMADEO E O HIPOTÉTICO MUNDO NOVO, de Brenda Lígia, Edu Felistoque e Everton Amorim (Brasil): Revelado mundialmente em concurso no Festival Internacional de Cinema de Xangai, esta delícia de animação apresenta uma fantasia histórica ambientada no Brasil de 1830. Seu enredo acompanha Amadeo, jovem de origem africana, sensível e genial, que inventa a câmera fotográfica antes dos europeus. Com sua criação, ele passa a auxiliar a libertação de pessoas escravizadas enquanto vive uma paixão impossível pela filha de um poderoso barão. Quando e onde: sexta-feira, às 18h45, e sábado, às 16h, ambos no Centro Cultural FGV.

INK, de Danny Boyle (Reino Unido): O longa de abertura do 83° Festival de Veneza não é pra todos os gostos, sobretudo pela atuação de Jack O'Connell, que divide gostos. A trama nos leva à Londres de 1969. Rupert Murdoch (um brilhante Guy Pearce) compra o decadente The Sun e entrega ao editor Larry Lamb (O'Connell) a missão de transformar o jornal no maior tabloide britânico. A disputa com o Daily Mirror conduz uma revolução na linguagem da imprensa, enquanto nasce um modelo de jornalismo que mudaria o setor para sempre. Quando e onde: domingo, às 21h, no Kinoplex São Luiz 2.

GLAXO, de Benjamín Naishtat (Argentina e Brasil): Sensação latina do último Festival de San Sebastián. Em uma pequena cidade argentina dominada pela fábrica da Glaxo, a amizade de um grupo de jovens se desintegra quando um policial aposentado (vivido pelo bestial Marcelo Subiotto) e sua sedutora mulher (Lali Espósito) chegam ao local. Paixão, violência e vingança atravessam décadas de transformações políticas e sociais, dos anos 1950 aos 1980, com direito a um resgate de "Exterminador do Futuro" (1984) em telas portenhas. A fotografia é assinada por Pedro Sotero. Quando e donde: domingo, às 16h, no Estação Claro Gávea 3.