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Extrema-direita vira nitroglicerina em 'A Promotora'

Premiado pelo público na Berlinale, longa de Faraz Shariat atropela a festa do cinema carioca investigando como o silêncio institucional abre caminho para o fascismo

Extrema-direita vira nitroglicerina em 'A Promotora'
Chen Emilie Yan em 'A Promotora', que venceu a láurea de júri popular na Berlinale, em fevereiro Crédito: Divulgação


Transformar a ascensão da extrema-direita europeia em matéria de suspense, sem diluir a complexidade política num simples jogo de mocinhos e vilões, é o desafio enfrentado pelo teuto-iraniano Faraz Shariat em "A Promotora" ("Prosecution").

Vencedor do Prêmio do Público da mostra Panorama da Berlinale de 2026, o longa de 114 minutos integra a mostra Expectativa do Festival do Rio trazendo como protagonista Seyo Kim, uma jovem promotora coreana e alemã (vivida por Chen Emilie Yan) que investiga a violência neonazista em solo germânico até ser ela própria atingida por um ataque racista.

A partir daí, a investigação deixa de ser apenas profissional: contrariando superiores, ela começa a descobrir uma rede extremista cuja dimensão expõe também as insuficiências do sistema judicial que deveria combatê-la. Tem sessão dessa pérola neste sábado, às 21h45, no Estação Claro Gávea 2. Este é "O" título mais obrigatório desta rota de adeus da maratona carioca. É uma reflexão sobre intolerância.

O que interessa a Shariat, porém, não é descobrir "quem fez", como numa investigação policial convencional. É entender como se sente alguém cercado por uma violência que nem sempre pode ser vista. A encenação faz da paranoia, do isolamento e da sensação crescente de hostilidade os motores de um thriller psicológico. Sons banais — carros, motocicletas, motores, fogo e vozes ouvidas na rua — passam a ser filtrados pela percepção de Seyo, tornando potencialmente ameaçador aquilo que, fora de seu estado mental, poderia ser inofensivo.

"Desde o início sabíamos que era um thriller, não um filme policial. Não se trata de saber quem fez ou como aconteceu, mas de entender como aquilo é sentido. A violência estrutural e institucional é, por definição, invisível. Como o filme é muito silencioso, percebi que o som seria a maneira mais eficaz de criar hostilidade", explica Shariat, ao Correio da Manhã, com o ator Sebastian Urzendowsky e Chen Emilie, em Copacabana.

O realizador constrói assim uma carga de tensão na qual o antagonista maior não cabe necessariamente dentro de um corpo. Está numa estrutura, numa burocracia e, sobretudo, na decisão de não agir. Durante a preparação do longa, a equipe mergulhou no funcionamento das instituições alemãs e encontrou um dado que se tornou essencial à dramaturgia.

"cerca de 80% dos casos com que tivemos contato na pesquisa eram arquivados. Escolher quais vítimas serão efetivamente ouvidas constitui também uma forma de silenciamento", alerta Shariat. "Diante do avanço fascista, o silêncio pode adquirir peso político semelhante ao da ação. Seyo obriga aqueles que a cercam a tomar posição. Numa sociedade em processo de radicalização, a força de quem permanece calado pode ser decisiva, pois uma sala vazia será preenchida por aqueles que levantarem a voz. Ao mesmo tempo, o filme evita transformar todo trabalho silencioso em omissão, reconhecendo a importância da resistência cotidiana realizada dentro das próprias instituições".

Essa contradição ganha forma especialmente nos personagens que ainda querem acreditar no sistema. Um deles vê sua confiança institucional ser retirada "tijolo por tijolo", até que o edifício de certezas comece a desmoronar. O filme não lhe oferece uma conversão heroica: mesmo quando finalmente escolhe um lado, continua hesitante. Essa ausência de heroísmo fácil impede que "A Promotora" transforme uma crise sistêmica numa fantasia de salvação. Nascido e criado na Alemanha, filho de uma família iraniana, Shariat também usa Seyo para questionar quem tem o direito de ser reconhecido como alemão. Para ele, não é exatamente a identidade alemã que se tornou fluida, mas a narrativa nacional que continua excessivamente estreita e excludente diante de uma sociedade transformada por sucessivas gerações de migração.

"As questões centrais são globais. O fascismo hoje funciona de maneira extremamente globalizada. Ao mesmo tempo, acredito que a resposta para resistir está no regional e no local. Por isso mergulhamos especificamente na linguagem jurídica alemã e não tentamos tornar o filme universal desde o princípio", diz o diretor, que identifica na exclusão de parcelas da sociedade e no uso do ódio como emoção política mecanismos recorrentes das novas extremas-direitas.

Há ecos possíveis do cinema político de Costa-Gavras e da secura de Michael Haneke em "A Promotora", embora Shariat rejeite filiações muito rígidas. Admirador confesso de Haneke, ele diz ter encontrado referências menos numa genealogia cinematográfica do que nas visitas a tribunais e instituições alemãs e na impressão causada pela própria arquitetura desses espaços. Sua experiência como pessoa queer e de origem migrante também informa uma obra interessada em personagens atravessados simultaneamente por conflitos emocionais e antagonismos sistêmicos.